Podemos falar de uma moralidade baseada na Bíblia?
Um
fenômeno excepcional da fé cristã é que Jesus nunca escreveu nada que tenha
chegado até nós como um documento reconhecido. É dito que, em uma ocasião
apenas ele escreveu algo mas que foi na areia, e o vento desmanchou.
O
que nós temos na verdade nos livros do Novo Testamento são relatos do impacto
que Jesus provocou nos seus seguidores e as tentativas da igreja
primitiva de colocar esse impacto do modo mais efetivo possível dentro do
contexto do seu tempo e da sua cultura.
A
partir desses primeiros textos é possível identificar os princípios bíblicos
essenciais que afetam as nossas relações com os outros e nos fornecem a base
para desenvolvermos uma moral cristã ou posição ética.
Primeiro:
amor ao nosso próximo, o qual insiste que tratemos a todos com compaixão,
respeito e cuidado. Os mesmos compaixão, respeito e cuidado com os quais
gostaríamos de sermos tratados. Nós nos preocupamos com o melhor para os
outros, independente de como isso irá nos afetar depois.
Segundo:
perdão e misericórdia, sem os quais nenhum relacionamento de amor e confiança
pode progredir.
Terceiro:
libertação de regras, leis e convenções sociais irracionais que violam a
justiça, a integridade e a honestidade, e que diminuem a auto-estima e a
liberdade das pessoas.
É
isso o que a bíblia ensina; se queremos definir uma moralidade bíblica
fundamental, é isso que devemos afirmar.
Tendo
isso em mente, nós podemos avaliar com sabedoria a importância de textos
isolados que contrariem o espírito desses princípios fundamentais. E podemos
fazer isso sabendo que temos o apoio de São Paulo.
Ele
escreveu: “Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que
estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade
da letra.” (Romanos 7,6)
Qual
seja, a velha lei é substituída por um novo fenômeno: a imagem de Cristo
formada dentro de nós pelo poder do espírito. Inspirados pelo exemplo de Jesus
e fortalecidos pelo espírito de Deus dentro de nós, podemos alcançar um novo
discernimento e uma compreensão mais profunda de como implementar o amor de
Deus no nosso tempo, assim como os primeiros cristãos o fizeram em seu tempo.
Por
causa dessa compreensão mais profunda nós abandonamos o modo antigo de pena de
morte para adultério (Deuteronômio 22) e para a desobediência aos pais
(Deuteronômio 21). Nós não obrigamos o homem a casar com a viúva do seu
falecido irmão (Deuteronômio 25) e nem impomos a penalidade, de morte por
apedrejamento, a quem deixa de fazê-lo. Também não mais exigimos que os
escravos se submetam aos seus donos, nem que as mulheres se submetam aos seus
maridos ou aos homens em geral.
Em
1940 os Arcebispos de Cantuária e de York pela primeira vez afirmaram que não
havia nenhum problema das mulheres não usarem chapéus dentro da igreja, a
despeito de Paulo e a Primeira Epístola aos Coríntios.
Nós
permitimos que divorciados se casem novamente. Ordenamos mulheres como
sacerdotes e muitas dioceses da Comunhão Anglicana as ordenam ao episcopado.
Permitimos a ordenação de divorciados.
Tudo
isso é possível porque vivemos na liberdade que Cristo nos trouxe e na vida de
amor que os Evangelhos proclamam. Devemos estar livres para amarmos e nos
afeiçoarmos dentro da nossa cultura, como Paulo fazia no contexto da sua.
Paulo
advogava o abandono das leis relativas à comida, o não mais observar o sábado e
também deixar de lado a circuncisão; via como irracional considerar isso tudo
como sinais necessários de fé, em vista do imperativo da expansão dos
Evangelhos. Para ele, os Evangelhos eram liberdade e ele lutou por isso em Roma
e na Galácia, com pessoas que tinham dificuldade de entender todas as
implicações de uma fé para a qual o amor, a compaixão, o respeito e a justiça
não devem ter limites.
Alguns
trechos de textos bíblicos, vistos sem a necessária atenção aos princípios
fundamentais que escoram a fé cristã, podem ser entendidos como sendo
tolerantes à injustiça, à subserviência, à rejeição, à descriminação e à
escravidão. Por exemplo, existe muito anti-semitismo em Mateus e João.
Passagens
isoladas da Bíblia, consideradas sem referência ao que é fundamental ao
conjunto, podem induzir a erros.
É
consistente com a compaixão e com o amor do ensinamento bíblico, e também com a
libertação da injustiça e da discriminação que a nova vida do espírito oferece,
afirmar a igualdade para todos em Cristo. Este é o princípio fundamental que
nos servirá de guia para uma apreciação bem informada, esclarecida e justa da
afirmação racial, dos lugares iguais de homens e mulheres na igreja e na
sociedade, dos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, responsabilidade
societária e assim por diante.
Acreditamos
que a igreja foi criada para representar o amor e a caridade de Deus. Paulo
afirma que nós estamos dispensados de qualquer regra que degrade ou bloqueie o
desenvolvimento integral da natureza humana. Ele nos estimula a servir a Deus
de um modo novo.
Graças
a São Paulo, e ao seu exemplo de estender o grau de aceitação e de generosidade
de Deus a uma extensão nunca pensada anteriormente, nós podemos agora apreciar
melhor o quanto o amor de Deus pode moldar as nossas vidas e como nós podemos
oferecer compaixão e justiça para todos.
(artigo
escrito pelo Reverendo Dr. John Shepherd para The Melbourne Anglican, publicado
no Anglican Episcopal World, nº123, 2006. Tradução de Joaquim de S. Campos
Neto).