Reflexões
sobre o Pai-Nosso
Uma conversa com o Arcebispo de
Cantuária, Sua Graça Reverendíssima Dr. Rowan Williams.
“Se alguém me pedir para fazer
um resumo da fé cristã nas costas de um envelope, o melhor que eu poderia fazer
seria escrever o Pai-Nosso”. Rowan Williams
Uma visita monitorada pelo
Pai-Nosso
“Pai Nosso”
Pertencer à família de Deus
Se você
analisa o Pai-Nosso por partes você dificilmente vai achar alguma parte que não
encontraria em algum lugar do Velho Testamento ou em orações judaicas.
O que é
absolutamente único nele, na minha opinião, é essa introdução simples “Nosso
Pai” e nada mais. Nada muito elaborado ou grandioso, apenas como que se
dirigindo ao pai da família.
Desse modo,
então, o ponto mais marcante é que todas as partes do Pai-Nosso são colocadas
nesse contexto. Essa é a oração da família de Deus. Nessa oração você se dirige
a Deus com toda a intimidade, não lhe dizendo quão maravilhoso ele é, nem se
prostrando perante ele de algum modo, mas se chegando a ele com inteira confiança.
E eu penso que
na época de Jesus isso deve ter soado um pouco estranho, talvez até chocante.
De fato, a
única coisa que todos se lembravam das preces de Jesus é que ele chamava Deus
de “Pai”, “Abba”, a palavra em sua língua tão conhecida e íntima.
Ele não começa chamando Deus de
“Senhor” ou “Mestre” ou “Criador”; ele inicia chamando-o de Pai.
E no Evangelho
de São João, quando Jesus encontra Maria Madalena após a Ressurreição, ele diz:
“Eu estou ascendendo ao meu pai e ao seu pai”.
Relações de família
Quando Jesus
fala de “pais” e filhos” no meu modo de ver ele nos dá exemplos desses
relacionamentos.
Pense na
estória do filho pródigo...O filho que fica na casa dos pais na realidade nunca
se torna um adulto. O filho que sai e se aventura, comete erros, aprende, pede
desculpas, volta: seja de um modo ou de outro, ele cresce. Ele é um filho
adulto do pai.
E a mim me
parece que os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de São Paulo nos dizem
que depender de Deus completamente, como de um pai, não é ficar preso em uma
dependência infantil. É sim, ser capaz de correr riscos, sabendo que o Pai
sempre estará lá para perdoa-lo e para lhe oferecer um novo começo.
E é assim que
a gente cresce. É como a gente se torna adulto de verdade. E eu não creio que
nem Jesus, nem São Paulo, nem ninguém do Novo Testamento nos quer infantis no
nosso relacionamento.
E a própria
vida de Jesus é a referência para isso. Ele está completamente dependente de
Deus, e ao mesmo tempo, é tão livre como alguém pode ser. Livre para correr
riscos; livre para encarar o sofrimento e a morte porque o Pai está lá, “Pai” é
o que ele diz na cruz. “Pai, em tuas mãos eu deposito o meu espírito”.
E quando
dizemos as palavras “Pai Nosso” nós devemos talvez pensar naquele pequeno
incidente da Ressurreição, onde Jesus diz para um amigo e seguidor, a
relação que eu tenho com Deus pode do mesmo modo também ser a sua relação com
Deus. Você e eu juntos formamos um Nós para Deus.
E assim,
quando você diz as palavras iniciais “Pai Nosso”, você está dizendo: Eu recebi
uma participação na relação de Jesus com Deus. Eu não tenho que entender a
minha relação com Deus como partindo da estaca zero. Eu não tenho que subir uma
longa escada para o céu, eu fui convidado para essa relação de família, e esse
é o presente com o qual toda oração se inicia.
Deste modo,
estas palavras com as quais começamos, nos dizem muito a respeito de quem nós
somos como cristãos e sobre as nossas doutrina e fé cristãs.
“Que estás no céu”
Quando nós
continuamos e dizemos “que estás no céu”, nós estamos dizendo Céu, o lugar de
Deus, o lar de Deus também é o nosso lar.
Em uma de suas
cartas São Paulo diz “a nossa nacionalidade é celestial”; ou seja, pertencemos
ao céu.
E o tipo de
relacionamento que acontece junto com Deus no céu é um relacionamento de amor e
confiança e intimidade e louvor, que pode ser nosso aqui e agora.
Palavras curtas e simples mas
suficientes para nos dizer que o céu está aqui na terra por causa de Jesus e
que nós podemos entrar nele.
“Santificado seja o teu nome”
“Santificado
seja o teu nome” é uma das frases que nos parecem um pouco estranhas, não é
mesmo? Eu tento visualiza-la contra o pano de fundo da idéia existente no Velho
Testamento de que o nome de Deus é, em si próprio, imensamente bonito e
poderoso. O nome de Deus é a palavra de Deus, é a presença de Deus.
E quando
pedimos para santificar-se o nome de Deus, que o nome de Deus seja visto como
santo, estamos pedindo que as pessoas no mundo pensem na presença de Deus entre
eles com assombro e reverência, e que não usem o nome ou a idéia de Deus como
uma arma para criticar as outras pessoas, ou como um tipo de mágica para se
sentirem seguros. Mas sim, se aproximar da idéia de Deus, do nome de Deus, com
a veneração e a humildade exigida.
O mandamento
de não tomar o nome de Deus em vão, dos Dez Mandamentos, nos textos judeus ao
tempo de Jesus, é muitas vezes pensado juntando-se o nome de Deus com uma
maldição = usando-se o nome de Deus como se fosse uma palavra mágica = ; isso é
banalizar o nome de Deus, é rebaixa-lo ao nosso nível, é tentar transformar
Deus em uma ferramenta para o nosso uso.
“Santificado
seja o teu nome” então quer dizer: compreenda o que você está falando quando
você está falando de Deus, isso é sério, essa é a realidade mais maravilhosa e
assustadora que nós poderíamos imaginar, mais maravilhosa e assustadora que nós
podemos imaginar.
E o mais
extraordinário é que nós podemos nos dirigir a Deus como Pai.
“Venha a nós o teu reino”
A idéia da
vinda do reino estava muito próxima da pregação central de Jesus.
O reino não é
um lugar ou um sistema; é um estado de atuação quando Deus está no comando. É o
ato de reinar de Deus, por assim dizer. É o estado no qual se reconhece Deus na
direção e dando sentido a tudo.
Deste modo,
nós oramos “Venha a nós o teu reino” querendo dizer que o mundo seja
transparente para Deus, que a vontade e o propósito de Deus e a natureza de
Deus se mostrem em todo o seu estado de atuação, porque isso é o que
significa ser rei para Deus.
Não é Deus dando ordens à torto e
à direita, mas Deus sendo visível em todos os lugares, Deus se mostrando
através das coisas em sua glória.
“Venha a nós o
teu reino” está dizendo que o mundo se abra à profundidade do amor de Deus,
que é o que realmente está na raiz de tudo.
E é o próprio
Jesus que nos conta que o reino chega de modos inesperados, ele não chega junto
com um grande estalo de trovão no fim dos tempos, ele cresce secretamente no
nosso interior. Ele aparece em momentos pequenos e peculiares, quando as
pessoas fazem coisas extraordinárias, correm riscos extraordinários e aí você
pensa, sim, esta é uma vida através da qual Deus está se revelando.
E novamente as
parábolas de Jesus nos falam de pessoas que desistem de tudo após um vislumbre
do Reino; eles vislumbram a beleza de Deus.
Então, é isso
que estamos pedindo, que o mundo mostre Deus, que Deus se mostre.
“Seja feita a tua vontade, assim na terra como
no céu”
“Seja feita a
tua vontade” é muito parecido com “Venha a nós o teu reino”, é um trecho típico
de poesia hebraica, o paralelo entre as duas partes da frase.
Aí nós estamos
pedindo que todo o universo reaja ao presente de Deus do mesmo modo.
Nós estamos
orando na versão elaborada do antigo Livro de Oração Comum; o mesmo modo que os
anjos de Deus agem no Céu, nós podemos espelhar essa ação aqui na terra.
E assim
dizemos que, por todo o universo a glória de Deus e a beleza de Deus são
refletidas de volta para ele através das estrelas e dos planetas, pelas plantas
e pelos animais ao nosso redor. O fato das coisas serem como são refletem a
glória de Deus e a vontade de deus.
Infelizmente
nós, seres humanos, temos uma certa falta de sensibilidade à vontade de Deus;
nós temos que aprender a cantar em conjunto sem desafinar.
Em algum
lugar, em um outro nível de realidade, a vontade de Deus se faz. Não muito bem
entre nós, seres humanos, aqui na terra, e então nós estamos pedindo para
ficarmos afinados, que não sejamos só nós cantando desafinados no grande coro
do universo.
“O pão nosso de cada dia nos dás hoje”
Rios de tinta
já foram gastos a respeito do significado exato de “o pão nosso de cada dia nos
dás hoje”, porque a palavra originalmente usada em grego é uma palavra muito,
muito estranha, que raramente a gente vai achar em algum outro lugar.
Provavelmente
significa de cada dia, provavelmente significa a matéria que nós
precisamos para sobreviver, mas algumas pessoas na igreja primitiva
entendiam como sendo o pão que queremos para amanhã ou mesmo o pão de
amanhã, “dá-nos hoje o pão de amanhã.”
E eles
pensavam que isso poderia significar nos proporcionar hoje o sabor do pão que
iremos comer no Reino de Deus. Deixe-nos experimentar o gostinho do grande
banquete e da celebração quando o universo converge por Cristo na presença de
Deus, o Pai.
E para muitos
cristãos isso tem a ver com a Santa Comunhão. Claro, de um certo modo a Santa
Comunhão é pão para hoje, é sim o nosso pão de cada dia, é a comida que
precisamos para ir em frente; mas é também a antecipação do sabor do pão do
céu, uma antecipação do sabor do prazer da presença de Jesus no céu à sua mesa,
em seu banquete, como está nos evangelhos.
Observam-se
assim muitos significados, muitas camadas. Mas eu não acho que a gente precisa
se ater a apenas um significado específico. Este significado simplificado vamos
em frente, dá-nos o que precisamos é tudo o que precisamos para continuar
indo em frente. E aí, quando continuamos a analisar, então nós nos perguntamos:
e aí, o que é que nós realmente precisamos?
Nós não
“vivemos apenas de pão”, disse Jesus, “mas de todas as palavras que vêm da boca
de Deus”.
Nós não
vivemos apenas no processo de satisfazer as nossas necessidades materiais; nós
precisamos mais do que isso, e uma das coisas que mais precisamos é esperança,
a esperança para o futuro.
E então aí de
algum lugar começa a surgir a forma de uma idéia, a sombra da idéia de que isso
também é pão para amanhã, o pão de amanhã.
“Perdoa-nos as nossas dívidas
assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”
“Perdoa as
nossas dívidas” de certo modo é a parte mais difícil do Pai-Nosso porque nos
diz claramente que orar é também querer modificar-se.
E é preciso
muita coragem para colocar-se frente a Deus e dizer perdoe-me porque eu
perdoei alguém. E eu nem sempre me sinto na posição de fazer esse tipo de
exigência para Deus. Eu acho que, na realidade, esta parte está nos dizendo
que, pensando como Deus nos perdoa então nós aprendemos a perdoar.
Isso nos faz
lembrar que a nossa capacidade de perdoar vem do fato de que nós estamos
conscientes do perdão de Deus para conosco e que nós nunca conseguiremos
perdoar ninguém enquanto isso não for totalmente compreendido. E não vale a
pena nos dirigirmos a Deus falando me desculpe, eu ainda nem comecei a ouvir
o que quer dizer perdão, eu não sei o que esta palavra significa.
Jesus nos
conta aquela ótima estória do servo do rei, ao qual é perdoada a sua dívida e
que, logo em seguida, esse mesmo servo coloca outro na prisão por uma dívida de
pequeno valor. E ele sublinha o ponto de que você não pode receber perdão se
você mesmo não perdoa; você se faz incapaz de receber perdão.
De um certo
modo é um círculo vicioso de eu não perdôo eu não posso ser perdoado. Se eu
não consigo escutar a palavra de perdão e deixa-la realmente me modificar,
então eu não serei capaz, eu não serei livre para perdoar; essa é uma oração
muito séria sobre o perdão.
Existe uma
imagem maravilhosa sobre isso, de um dos primeiros pais da igreja. Ele nos diz
que é como tentar ensinar a uma criança como fazer algo. O pai faz isso com
cuidado várias vezes. Aí, ele pára e diz agora você faz sozinho. Deus
nos perdoa e então pára e diz agora você me mostra como se perdoa.
“E não nos deixes cair em tentação, mas
livra-nos do mal”
Em primeiro
lugar eu acho que nós podemos ver isso no contexto do tempo de Jesus.
Os seus
ensinamentos muitas vezes tocam nesse ponto, de que está chegando um grande
tempo de julgamento. Um tempo no qual a gente vai descobrir do que a gente é
realmente capaz, como muitas vezes se diz, de que você só sabe do que alguém é
realmente capaz de fazer quando está sob pressão. Estamos indo em direção a um
tempo no qual você vai ter que decidir o quanto Deus é importante para você;
você vai ter que colocar a sua vida no jogo de verdade.
E Jesus como
que nos diz não pense que você sabe a resposta para este tipo de questão.
Não tenha tanta certeza de que você sabe o quanto você é realmente capaz. Peça
para que você tenha os meios necessários para lidar com o julgamento que está
vindo, que é quando as coisas vão ficar realmente difíceis.
As palavras
“não nos deixe cair em tentação” parecem que não exprimem bem esse pensamento
porque tentação, para nós, no geral significa apenas um tipo de impulso para
fazer coisas pecaminosas ou indignas.
Mas a palavra
tem um significado muito maior quando vista em seu contexto: ela se refere a
esse enorme julgamento que está chegando, a essa enorme crise que está
chegando. Não nos coloque na crise, Deus, por favor não nos empurre para o
tempo da crise antes de nos deixar bem preparados para ela. Não nos leve para
lá antes de nos dar o que necessitamos para encara-la.
E eu acho que
é uma oração muito boa de ser feita, porque existem, para todos nós, tempos de
crise nos quais a gente se vê como a gente realmente é, e isso nem sempre é
agradável e nós nos damos conta de que não estamos à altura dela.
Deste modo,
vale a pena pedir a Deus dê-nos o que nós precisamos para enfrentar a crise
quando ela chegar, e Deus, por favor, não deixe que nós sejamos colocados nela
muito cedo.
E então, novamente, está
conectado com livra-nos do mal, liberte-nos. Livra-nos de todas estas coisas,
os medos, os pecados, os hábitos egoístas que nos mantém prisioneiros e que nos
tornam incapazes de enfrentar a crise.
Novamente,
provavelmente o significado original era salve-nos do Maligno. Pois são nos
tempos de crise que o Diabo, o inimigo da humanidade, aproveita para agir. Ele
deve estar se divertindo agora, porque em tempos cheios de medos e de
inseguranças o Diabo aproveita para nos manipular, intensificando e reforçando
o que há de mais não-humano em nós.
E as pessoas de agora podem ou não acreditar no
Diabo como um ser; mas eu acho que essa idéia faz sentido, o princípio ou o
poder do mal vindo para se aproveitar da nossa fraqueza e do nosso medo. E eu
posso muito bem pedir que me livrem disso.