 |
| Igreja Episcopal Anglicana do Brasil - Diocese de São Paulo |
| Paróquia de São João |
| Artigo: Maria na tradição da Igreja Anglicana |
|
 |
 |
| Maria na tradição da Igreja Anglicana |
 |
Gostaria, antes de mais nada, de agradecer ao convite que me foi formulado para
falar neste Congresso Mariológico Mariano, acerca de um tema tão importante. E
porque sei que é um tema de suma importância, tenho também conhecimento do peso
de minha responsabilidade e das minhas limitações. Preferi falar neste dia sobre
a posição encontrada na Comunhão Anglicana e não especificamente nas Igrejas da
Reforma. Assim o fiz por duas razões. Em primeiro lugar, em função do pouco
tempo que temos. Falar da presença e da ausência de Maria nas diversas tradições
reformadas exigiria bastante tempo, o que inviabilizaria esta comunicação. Em
segundo lugar, em função de nossa ignorância do tema, que exigiria um
aprofundamento nestas mesmas e riquíssimas tradições o que não seria uma tarefa
fácil. Se considerássemos apenas a obra de João Calvino, estaríamos em apuros;
quando somamos a esta, os textos de Lutero e dos demais reformadores, com
certeza, estaríamos em maus lençóis. A tradição Anglicana, no entanto, possui em
seu seio muito da tradição luterana e calvinista, o que pode facilitar a
reflexão. Além do mais, há um dado pessoal que pode ser lembrado: é, para mim,
muito mais familiar falar do anglicanismo.
O que é a Comunhão Anglicana e o espaço que Maria ocupa nesta Comunhão.
A Comunhão Anglicana é um conjunto de 40 Províncias (Igrejas) autônomas e
autocéfalas, espalhada em 164 países e que congrega atualmente cerca de 95
milhões de pessoas. Estas Províncias estão em comunhão com a sé de Cantuária e
possuem em comum uma história, uma espiritualidade, uma liturgia, um ethos, além
de instâncias internacionais de extrema importância como a Conferência de
Lambeth – que congrega a cada 10 anos todos os bispos anglicanos do mundo; a
Reunião dos Primazes e o Conselho Consultivo Anglicano. Estas instâncias
internacionais, contudo, não são deliberativas - uma vez que cada Província é
autocéfala – mas trazem consigo um enorme poder espiritual e representativo.
Uma das marcas da Comunhão anglicana é o seu ethos inclusivo, compreensivo e
diverso. Isto significa que os anglicanos optam por manter uma espécie de via
média entre Roma e Genebra. Ou seja. Dentro do anglicanismo existe a explícita e
consciente tomada de posição por se manter a Tradição Católica da Igreja, ao
lado da Tradição Protestante. O anglicanismo não nega os séculos de tradição que
recebeu da patrística e da escolástica, mas também não rejeita o sopro renovador
trazido pela Reforma protestante do século XVI. No anglicanismo as tradições
litúrgicas e espirituais dos Pais da Igreja, co-existem com as doutrinas
reformadas da sola escriptura e da sola gratia.
Na prática isto significa que algumas comunidades, ou até mesmo dioceses e
Províncias, poderão se identificar mais com a tradição católica ao passo que
outras se ligarão mais a vertente reformada. Historicamente estas duas
tendências ficaram conhecidas como Igreja alta e Igreja Baixa.
A prática histórica da Igreja Anglicana tem reservado um lugar especial para
Maria. Este espaço reservado para a pessoa da Virgem em nossas comunidades, tem
sido bem maior do que o espaço encontrado em outras comunidades da Reforma e
pode ser percebido em pelo menos cinco fatos. Em primeiro lugar, a Igreja
anglicana, em todo o mundo, tem inúmeras paróquias e catedrais dedicadas à
memória da Virgem. Poderíamos fazer referência, por exemplo, a St Mary’s
Cathedral em Edinburgh, Escócia; à Igreja de St. Mary em Nackington, Inglaterra;
a Igreja de St Mary em Hong Kong; e tantas outras Igrejas e catedrais dedicadas
à memória da mãe do Salvador. No Brasil, citamos as paróquias da Virgem Maria em
Caxias do Sul, RS e de Santa Maria em Belém, PA.
Um segundo fato que também merece nossa referência, é a prática muito comum em
toda Comunhão Anglicana, de se dedicar pelo menos uma capela nas grandes igrejas
e catedrais à memória da Virgem, e de se usar, nestes lugares, a figura de
ícones marianos. É assim, por exemplo, na catedral de Cantuária que possui no
seu lado norte, a Capela da Bem-aventurada Virgem Maria.
Em terceiro lugar, devemos fazer referência também a presença de imagens da
Virgem Maria em algumas igrejas anglicanas. Devemos registrar, contudo, que esta
prática é muito rara, sendo encontrada apenas em paróquias fortemente
anglo-católicas.[2] Como exemplo podemos citar a presença de uma imagem
conhecida como “Our Lady of Canterbury” na cripta da Igreja Catedral de Cristo,
em Canterbury. No Brasil esta prática é inexistente.
Uma outra prática, também comum a tradição anglo-católica de nossa Igreja, é a
existência de lugares de peregrinação mariana, onde a pessoa da Virgem é
lembrada e seu exemplo é vivido. Podemos fazer referência, por exemplo, à capela
de Nossa Senhora de Walsingham, na Inglaterra, e que recebe desde 1061,
anualmente milhares de pessoas que vão até lá lembrar da dedicação da Virgem ao
Senhor e agradecer a Deus por ela.
Finalmente, não podemos deixar de mencionar as muitas comunidades religiosas de
espiritualidade mariana que existe em todo o mundo. À semelhança da Irmandade
Evangélica de Maria, uma comunidade luterana que existe em Curitiba e que se
iniciou na Alemanha, a Comunhão Anglicana possui inúmeras comunidades,
monásticas ou não, mistas ou não, celibatárias ou não, em que a pessoa de Maria
é vista como exemplo e padrão de espiritualidade. Na Inglaterra podemos
encontrar várias delas, dentre as quais destacamos The Community of Our Lady &
Saint John, The Community of St Mary the Virgin, The Community of Blessed Lady
Mary, e The Congregation of the Sisters of the Visitation of Our Lady.
Onde encontramos a “teologia” da Igreja Anglicana?
É comum dentro da Comunhão Anglicana se afirmar que nós não temos uma teologia
oficial. Os luteranos estão muito ligados à pessoa e às idéias de Martinho
Lutero; os presbiterianos e reformados se auto-intitulam “calvinistas”; o
“tomismo” já teve (ou tem?) um certo status dentro da Igreja Romana, mas o
anglicanismo jamais pretendeu ser “luterano”, “calvinista” ou “tomista”. Na
realidade as três correntes (e muitas outras) existem no seio do anglicanismo. A
Igreja, contudo jamais, se auto-definiu como sendo seguidora “deste” ou
“daquele” teólogo. Quando nos perguntam “no que” a Igreja Anglicana crê,
normalmente apresentamos o Livro de Oração Comum, como um texto que contém nossa
crença. A Igreja anglicana crê como ora. Lex credendi lex orandi. E é assim,
também quanto a pessoa da Virgem Maria. Se quisermos saber qual o lugar dado à
mãe de nosso Salvador na Igreja anglicana, devemos pesquisar, antes de mais
nada, o LOC.[3]
A pessoa da Virgem Maria no LOC
Além de ser obviamente mencionada dominicalmente na recitação do Credo
Apostólico ou no Credo Niceno, o Livro de Oração Comum faz referência à Virgem
em outras ocasiões: particularmente no Calendário, nos Próprios e nas Orações
Eucarísticas. Vejamos cada uma destas referências.
3.1. No calendário do LOC de 1987, no item 3, dedicado aos dias santos[4],
encontramos três datas dedicadas a Maria. A primeira é a festa da Anunciação da
Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 25 de março. A segunda, é a festa
da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada dia 31 de Maio, e a
terceira é a festa da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 15 de
agosto. Devemos ressaltar que além destas datas, os antigos Livros de Oração
Comum da Província do Brasil falavam de uma outra festa chamada de “Purificação
da Virgem Maria” celebrada no dia 02 de fevereiro[5] e que, mais tarde, passa a
se chamar de “Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo no Templo”.
3.2. Os Próprios lidos nestes dias, nos dão uma pista do papel que a Virgem
Maria desempenha na teologia anglicana. O primeiro próprio, lido no dia 25 de
março, contém a seguinte oração:
“Suplicamos-te, Senhor, que dotes com tua graça os nossos corações, para que,
assim como pela mensagem de um anjo à Virgem Maria havemos conhecido a
encarnação de teu filho Jesus Cristo, também por sua paixão e cruz sejamos
levados à glória de sua ressurreição. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e
reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.[6]
O segundo próprio que menciona a Virgem Maria é o de 31 de maio, dia da
Visitação da Bem-aventurada Virgem, e que diz o seguinte:
“Ó Pai Celestial, por cuja graça uma virgem pura foi escolhida e abençoada para
ser mãe de teu Filho, Jesus, mas muito mais abençoada em ter ouvido e guardado
tua palavra; concede, a nós que honramos a exaltação de sua humildade, sigamos o
exemplo de sua devoção à tua vontade. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e
reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.[7]
Finalmente o próprio do dia 15 de agosto que nos diz:
“Ó Deus, que chamaste à tua presença Maria, bem-aventurada mãe de teu Filho
Encarnado, por cujo sangue fomos redimidos; concede-nos participar com ela na
glória do teu eterno reino, por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina
contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.[8]
3.3. Nas Orações Eucarísticas
Ela é mencionada na oração eucarística do Rito II, quando se diz acerca do
filho “Tu O enviaste para assumir a carne humana, nascer da Virgem Maria e ser o
Salvador e Redentor do mundo”.[9] E também aparece no corpo da Grande Oração
Eucarística B que diz: “Ó Pai, de tal maneira amaste o mundo que, na plenitude
dos tempos, enviaste teu único Filho para ser nosso Salvador. Feito carne pelo
Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria e viveu como um de nós, mas sem
pecar”.[10] Ainda nesta mesma Oração, a Virgem aparece uma segunda vez ao se
dizer: “E concede que participemos da herança dos Santos, [com a Bem-aventurada
Virgem Maria, os Patriarcas, Profetas, Apóstolos e Mártires (e com NN)] e com
todos os que tiveram o teu favor nos tempos passados”.[11]
As ultimas referências feitas à Virgem Maria no LOC se encontram nos lecionários
dominicais e diário dos Dias Santos[12], acompanhadas com as respectivas
leituras da Escritura.
A Virgem Maria no Hinário Anglicano
O Hinário anglicanos possui poucas músicas que fazem referência à Mãe do
Salvador. Estas músicas normalmente são indicadas para os momentos litúrgicos
que celebram os eventos da história da salvação (p.e. Natal e Epifania) ou são
músicas que apresentam a mãe do salvador ao lado dos apóstolos e demais santos
em louvor ao Trino Deus ou a Cristo. Como exemplo deste tipo de Música, citamos
a terceira estrofe do hino 218 que diz:
“Ó Virgem Mãe do Redentor,
Cheia de graça, em seu louvor
Também cantas – aleluia!
Lá nas alturas entre os anjos,
Na companhia dos arcanjos:
Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia!”
Dentre os hinos que podemos citar como exemplos apropriados para as festas
litúrgicas, citamos o de nº 107 do Hinário Episcopal, de autoria do Rev.
Henrique Todd Júnior, que é apropriado para a festa da anunciação e que nos diz
o seguinte:
“Honra demos a Maria, Virgem bem-aventurada.
Adoremos a seu filho, luz do céu a nós mandada.
Deus-menino veio à terra, Virgem-Mãe lhe deu beleza.
Fez-se carne o eterno Verbo, Nossa é dele a natureza.
Honra ao filho de Maria! Em seu lar de piedade,
Nem pobreza, nem fadiga, Nele impedem a bondade.
Seu amor à mãe bendita é constante, puro e forte;
Se deveres os separam, nela pensa até na morte.
Toda a glória ao Pai se oferte, toda a glória ao Filho seja,
Toda a glória ao Parácleto – cante sempre a santa Igreja.
Essa mesma trilogia, lá no céu Maria entoa,
Repetida pelos santos, pela terra inteira ecoa!”
Um resumo
Alguém já disse que “quem procura um santo busca um exemplo”. É assim que a
Virgem Maria é vista na Comunhão Anglicana. Como um exemplo em muitas áreas da
vida. Ela é, primeiro, exemplo de humildade. Ao ser confrontada com o Anjo ela
reconhece sua condição humana e fala de sua indignidade. Maria nos dá um grande
exemplo. Nos mostra que Deus pode “encher de graça” aqueles que dela necessitam.
Martinho Lutero, em seu comentário do Magnificat, explicando porque traduziu a
palavra “humildade” por “nulidade” ou “ser insignificante”, nos diz que Maria
pretendia dizer o seguinte:
“Deus olhou para mim, uma moça pobre, desprezada e insignificante. Ele poderia
ter escolhido ricas importantes, nobres e poderosas rainhas, filhas de príncipes
e grandes autoridades. Poderia muito bem ter escolhido a filha de Anãs ou
Caifás, que teriam sido os maiorais do país. Porém ele olhou para mim, por pura
bondade e usou para este fim uma moça humilde e desprezada. Diante dele ninguém
deveria vangloriar-se de ter sido digno disso. Também eu tenho que confessar que
se trata de pura graça e bondade. Não há merecimento ou dignidade nenhuma de
minha parte”.[13]
Para Lutero, Maria, que é chamada por ele de “a doce virgem”, não se vangloria
de sua dignidade e nem tão pouco de sua indignidade, mas somente do olhar
gracioso de Deus sobre ela. Segundo o reformador alemão, ela não se envaideceria
de sua virgindade nem de sua humildade, mas apenas da graciosa observação
divina. Por isso, nos diz Lutero,
“a ênfase não está na palavrinha ‘humildade’, mas em ‘contemplar’. Não é sua
humildade que deve ser louvada, mas a atenção por parte de Deus. Como quando um
príncipe estende a mão a um mendigo: não se elogia nulidade do mendigo, mas a
misericórdia e a bondade do príncipe”.[14]
Maria é também vista como exemplo de desprendimento. Poderíamos até especular (e
sei que isto já foi feito) sobre o que teria acontecido se ela tivesse rejeitado
a proposta de Deus. Mas o dado é que ela abraçou o convite de Javé e, ao fazer
isso, disse não a sua própria vida, a seus projetos, a seus sonhos, a tudo o que
havia imaginado com seu marido. Ela estaria eternamente ligada àquele que seria
seu Filho e Salvador do mundo e à sua Missão.
Em terceiro lugar ela é apontada como exemplo de submissão. Ela disse “eis aqui
a serva do Senhor. Cumpra-se segundo a sua vontade”. Ela era uma mulher submissa
ao seu Deus e como tal, se apresenta para servir às ordens de Deus, com tudo o
que tem: sua vida!
Ela é também exemplo de santidade. Ser “santo” significa ser “separado”,
“dedicado” para algo ou alguém. E Maria era assim: dedicada com todo o seu corpo
e alma a Deus e ao seu propósito.
Maria é, também, vista como a mais Bem-aventurada de todas as mulheres. Por ser
a mãe do Salvador; por receber em seu ventre o Verbo da vida; por amamentar
aquele que nos sustenta com sua mão; por cuidar daquele que cuida de nós. O que
ela presenciou, viveu, sentiu, contemplou, nunca jamais poderá ser feito por
outra mortal. Ela, mais do que qualquer outra é, sim, Bem-aventurada!
Em resumo, podemos assumir tudo o que foi dito por Karl Barth quando ele assim
se expressa: “Maria é um fator indispensável na proclamação bíblica pela
ausência da ênfase em sua pessoa, pelo significado infinito de sua modéstia e
humildade, de quem só recebe a bênção”.[15] De acordo com esta leitura, sua
grande marca é, nas palavras do Bispo Sumio Takatsu “A vida oculta em Cristo,
sem aparecer no primeiro plano e nem no ‘kerygma’ apostólico”.[16]
Pontos de tensão
Depois do que foi dito, é bom falar um pouco dos pontos de tensão existentes
entre nossas tradições. Primeiro reflitamos sobre o culto. Os anglicanos fazem
um culto centrado na Trindade. Do início ao fim do culto há inúmeras referências
à Santíssima Trindade. Nosso louvor, nossa adoração e nossas orações são todas
feitas em direção a Deus, pela mediação de Jesus Cristo. A prática de se dirigir
orações a Maria ou aos demais santos é inexistente na Igreja anglicana. Nossa
compreensão das Escrituras só nos autoriza orar a Deus. Em função da doutrina da
Comunhão dos santos, contudo, não há problemas em se aceitar que os Santos na
glória orem e intercedam pela Igreja Militante, contudo esta oração é vista como
uma intercessão no sentido lato ou genérico, e não no sentido estrito ou
específico. Esta leitura compreende que, mesmo na glória, os santos continuam
sendo ontologicamente seres humanos e, como tal, desprovidos de onisciência ou
onipresença. Não cremos, portanto que os santos possam tomar ciência das orações
que lhes são dirigidas (muitas delas mentais) pelos fiéis na terra.
Um segundo ponto de tensão diz respeito aos chamados dogmas marianos. Existem
quatro dogmas marianos aceitos na Igreja romana: o dogma da Maternidade Divina,
a Virgindade Perpétua, a Assunção e a Imaculada Conceição. Estes dogmas são, via
de regra, e em bloco, questionados pelas denominações protestantes mais jovens.
Contudo, a medida em que retrocedemos no tempo, quase todos são compreendidos e
aceitos, se lidos dentro de uma outra ótica. Quanto ao primeiro dogma, o da
Maternidade Divina, ele é recebido sem qualquer dúvida, por todas as Igrejas da
primeira Reforma (Anglicanos, Luteranos e Calvinistas) quando lido dentro do seu
contexto original. A compreensão reformada entende que a fórmula teotokos surgiu
dentro de um debate cristológico e não mariológico. Assim sendo, as Igrejas da
Reforma não possuem qualquer dificuldade de acreditar, e proclamar, que Maria
não foi mãe de mero homem, mas mãe de Deus. Ela não levava em seu ventre alguém
que possuía apenas a natureza humana, mas era Portadora de Deus. O Verbo divino
repousava em seu ventre. A leitura reformada, em geral, e anglicana, em
particular, compreende que o contexto da declaração aponta para um resgate da
dignidade do Filho e não da mãe.
O segundo dogma apresenta um componente maior de dificuldade para os reformados.
A leitura comum entre os membros da família protestante histórica é que houve um
tratamento equivocado com a palavra “virgem”. Há, no Antigo Testamento, uma
profecia acerca da “virgem que conceberá e dará a luz a um filho”. Todos os
cristãos, independente da tradição, compreendem que este verso se refere ao
nascimento de Jesus. Mas o que se coloca é que a palavra “virgem” surge no
contexto hebraico e é transferida sem qualquer advertência para o contexto grego
onde será, mais tarde, transformado em dogma.[17] Explico. Segundo os exegetas a
palavra hebraica usada para “virgem” significa apenas “jovem” ou “moça”. Com
isso não se quer dizer que Maria não era “virgem” no sentido “físico” mas apenas
que era uma “jovem” que daria a luz ao salvador. As duas verdades obviamente
estavam ligadas. Esta visão judaica foi esquecida e uma outra interpretação ou
leitura (agora grega) será usada para ler a palavra “virgem”. Entre os gregos, a
virgindade se associava mais com a idéia de alguém “intocado” ou mesmo “sem
mácula para o sacrifício”. A chave hermenêutica grega não observa mais a
juventude mas o estado físico. Em função dessa apropriação do texto bíblico a
partir de uma ótica helênica, a Igreja sempre afirmou a virgindade de Maria.
Dentro dos arraiais reformados históricos, e isto inclui os anglicanos, os
textos teológicos e/ou litúrgicos oficiais, sempre se referiram a Maria como a
Virgem Maria. Entendo, todavia, que a leitura protestante da virgindade de Maria
não passa pelo contexto fisiológico (até porque os protestantes sempre
compreenderam que Maria teve outros filhos), mas é visto pelo contexto da pureza
e da castidade. Marcas que cremos, ela sempre preservou. A simples associação do
sexo com a impureza é hoje rejeitada entre os protestantes. O argumento mais
forte entre os reformados, contudo, me parece ser o exegético. Este texto de
Isaías, diz a tradição protestante, ressalta o Filho de Deus e não o papel da
jovem que conceberia. Na história de Israel inúmeros homens foram chamados por
Deus para um papel especial e é surpreendente notar que a marca de seu
chamamento foi a miraculosidade de seu nascimento. Foi assim com Isaque, Samuel,
Jacó, Esaú, Sansão, João batista, etc. o fato de terem todos eles mães incapazes
de gerar apenas exaltava o filho como alguém enviado por Deus para uma missão
especial. O dogma da virgindade de Maria também exalta, portanto, o Filho.
Quanto ao dogma da Assunção de Maria, ele é universalmente rejeitado entre os
reformados, mas “relido” entre alguns anglicanos. Para um segmento do
anglicanismo, a assunção de Maria ao céu é aceita e vista como um quadro que
descreve o que ocorreu com todos os que morreram em Cristo e que deverá
acontecer com todos os demais cristãos. Sim, afirmamos que Maria foi assunta aos
céus e que foi coroada. Mas, por um lado, negamos que sua assunção tenha sido
corporal e, por outro, afirmamos que ela recebeu a coroa que todos os cristãos
também receberão. É por isso que o próprio deste dia faz referência ao fato de
ter sido ela “chamada” a presença de Deus, o que ocorrerá com todos nós.
O ultimo dogma é universalmente rejeitado pelos reformados. A leitura comumente
aceita entre as famílias protestantes, e isto inclui os anglicanos, é que Maria
também possuía a mácula do pecado original e que, como tal foi perdoada e salva
pela morte vicária e expiatória de Jesus. Ela não era “cheia de graça” como nos
fazia crer o texto da Vulgata, (que inspirou a reflexão escolástica) mas,
“agraciada”, como se lê mais corretamente no texto grego. Ou seja, a leitura
reformada encontra em Maria um receptáculo da graça que a atinge imerecidamente
e não alguém que possui, por causa da ausência da mácula original, graça em si
mesma.
Na realidade, os anglicanos (assim como os reformados e ortodoxos) entendem que
estes dois últimos dogmas possuem três grandes problemas. O primeiro problema é
a falta de catolicidade do testemunho da Igreja. Assim como encontramos autores
que defendem ambos os dogmas, encontramos também Pais da Igreja que jamais
assinariam estas declarações. Ou seja, a Imaculada Conceição e a Assunção
Corporal nunca foram universalmente aceitos pelo testemunho inequívoco da
Igreja, existindo este ultimo dogma apenas em textos pseudoepigráficos e em
lendas antiqüíssimas.
O segundo problema é a falta de catolicidade na proclamação destes dogmas.
Segundo o entendimento anglicano (e também reformado e ortodoxo), estes dogmas,
representam a declaração de uma parcela da Igreja Católica de Cristo, a medida
em que apenas a Igreja Romana assim compreende, define e aceita. Ficaram de fora
da discussão todas as demais tradições cristãs. Tanto as famílias ortodoxas
quanto os cristãos reformados deveriam estar presentes para que estas
formulações tivessem poder católico ou universal. Todos os principais teólogos
do século XX fizeram referência a estas duas declarações dogmáticas como
complicadores para o diálogo ecumênico. É claro que na base desta discussão está
o conceito Romano de “Igreja” recentemente discutido e lembrado no documento
Dominus Iesus.
O terceiro problema é a redação impositiva do texto da Bula Inaffabillis Deus.
De acordo com o documento do Papa Pio IX esta doutrina “deve ser crida firme e
constantemente por todos os fiéis”. Exigir a crença na Imaculada Conceição aos
“fiéis” implica em impor um julgo muito pesado sobre o restante da cristandade,
além do que, entende os anglicanos, em um juízo de valor extremamente forte e
contundente, que apenas contribui para cindir mais a ferida que existe no Corpo
de Cristo.
Lamentamos que a figura da Virgem Maria seja completamente e deliberadamente
esquecida na maioria das comunidades que surgiram em decorrência da Reforma
protestante do século XVI. É nossa convicção, no entanto, que a Bem-aventurada
Virgem Maria ocupa um lugar especial na Comunhão anglicana. Ela é honrada como
Bem-aventurada; honrada como Virgem e como Mãe de Deus. Mas, como diz o Rev.
Luiz Caetano Teixeira, “a evocação de Maria entre os anglicanos, em sua maioria,
é no sentido de tê-la como referência e modelo, mas não como advogada ou
co-operadora na Graça”.[18]
Conclusão
Como vimos, há, entre os anglicanos e entre os cristãos reformados, um espaço
relevante que é dedicado à pessoa da virgem Maria. No entanto, este espaço tende
a ser menor do que aquele que é dado pela igreja romana. Vimos também que no
anglicanismo e nas demais igrejas reformadas, os santos em geral, e Maria, em
particular, são exemplos de vida para todos os cristãos. O maior exemplo desta
postura dentro da liturgia anglicana, é a oração adicional presente à página 208
do LOC que diz o seguinte:
“Ó Deus, Rei dos Santos, nós te louvamos e glorificamos teu Santo Nome por todos
os teus servos que já encerraram sua carreira em tua fé e temor; pela bendita
virgem Maria; pelos santos patriarcas, profetas, apóstolos e mártires; e por
todos os demais teus servos justos, tanto os conhecidos como os desconhecidos; e
te rogamos que nós, estimulados por seus exemplos, ajudados por suas orações e
fortalecidos por sua comunhão, sejamos também participantes da herança dos
santos em luz; pelos merecimentos de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.[19]
Esta citação nos coloca diante de um resumo do que afirma a tradição anglicana.
Os santos são vistos como exemplos que fortalecem nossa vida e como
intercessores (mesmo que orem genericamente) junto ao Pai. Esta doutrina tem
base, acima de tudo, na doutrina histórica da “comunhão dos santos” e possui uma
vasta aceitação em todos os seguimentos da comunhão anglicana.
Para concluir, devemos reconhecer que por trás de toda dificuldade que temos
para sentar e refletir sobre os grandes temas da salvação, existe uma história
cheia de ódio, de desamor, de intriga e de sofrimento. Não é fácil fazer com que
estas parcelas separadas (pela falta de humildade) do corpo de Cristo reconheçam
sua parcela de culpa na separação. Mas pelo menos devemos olhar para o Colégio
Apostólico com outros olhos. Eles eram homens diferentes; com panos de fundo
diferentes; origens diferentes e temperamentos diferentes. Mas eles tinham duas
coisas em comum: o desejo de cumprir a Missão que seu Senhor lhes dera e a
presença de Maria entre eles. Como uma mãe preocupada com o bem estar dos
filhos, Maria nos dá a mesma orientação que deu àqueles que estavam nas bodas de
Caná e que serve de texto base para este Congresso Mariológico Mariano: “fazei
tudo quanto ele vos disser” (Jo 2:5). Se conseguirmos, ainda hoje, ouvir as
instruções da Virgem, com certeza não faltará alegria (vinho) entre os
convidados para a festa (do Reino). Que o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria
nos inspire a todos e nos faça mais consagrados ao serviço da vida e da
esperança.
|
 |
| Autor: Rev. Jorge Aquino, ose [1] |
 |
BIBLIOGRAFIA
LUTERO, M. O Louvor de Maria. São Leopoldo/ Porto Alegre, Editora Sinodal/Editora Concórdia, 1999
MOSS, Claude B. The Christian Faith: an introduction to dogmatic theology. London, SPCK, 1961
NEILL, Stephen. El anglicanismo. Madri. Iglesia Española Reformada Episcopal, 1986
O LIVRO de Oração Comum: Forma abreviada e atualizada com Salmos litúrgicos. Porto Alegre, Igreja Episcopal do Brasil, 1987
HINÁRIO Episcopal. Porto Alegre, Publicadora Ecclésia, 1962
TAKATSU, Sumio. Dogmas mariológicos e suas interpretações. In: ASTE – Associação
de Seminários Teológicos Evangélicos (Ed.). O Catolicismo Romano: um simpósio
protestante. São Paulo: ASTE, s.d.
TEIXEIRA, Luiz Caetano G. A Bem-aventurada Virgem Maria no Anglicanismo. In
Grande Sinal - Revista de Espiritualidade, Ano LII- 1999/2. Petrópolis, Instituto Teológico Franciscano, 1999
|
 |
[1] O Rev. Jorge Aquino é Presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil,
servindo à Diocese do Recife, como Arcediago da Paraíba e do Rio Grande do
Norte. É membro da Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir e Reitor do
Seminário Teológico Anglicano do Recife.
[2] Em uma matéria editada no Anglican World na festa da Trindade de 2001, há
uma referência a cerimônia da bênção de uma imagem de Maria com o menino Jesus,
realizada no dia 24 de abril, no College of Preachers (Catedral de Washington)
pelo Arcebispo de Cantuária D. George Carey.
[3] No Brasil normalmente chamados o Livro de Oração Comum pela abreviação LOC.
[4] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 14
[5] Esta designação ocorre desde o LOC de 1903 até o de 1950.
[6] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 139
[7] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 140
[8] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 142
[9] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 76
[10] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 87
[11] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 89
[12] LIVRO DE ORAÇÃO COMUM, p. 430, 431 e 506-508
[13] LUTERO, M. O Louvor de Maria. São Leopoldo/ Porto Alegre, Editora
Sinodal/Editora Concórdia, 1999. p. 38
[14] LUTERO, M. O Louvor de Maria. São Leopoldo/ Porto Alegre, Editora
Sinodal/Editora Concórdia, 1999. p. 39
[15] BART, Karl, Church Dogmatic. Vol. I, 2,p.140
[16] TAKATSU, Sumio. Dogmas mariológicos e suas interpretações. In: ASTE –
Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (Ed.). O Catolicismo Romano: um
simpósio protestante. São Paulo: ASTE, s.d. p. 136
[17] A palavra hebraica que significava “jovem” será traduzida na LXX por
“virgem” e é aqui que surge o problema.
[18] TEIXEIRA, Luiz Caetano G. A Bem-aventurada Virgem Maria no Anglicanismo. In
Grande Sinal- Revista de Espiritualidade, Ano LII- 1999/2. Petrópolis, Instituto
Teológico Franciscano, 1999, p. 144
[19] Livro de Oração Comum p. 208, 209
|
 |
|
|
 |
| |
 |
| Paróquia de São João - IEAB |
Rua Coropés, 108 - Pinheiros - CEP: 05426-020 - São Paulo/SP Tel/Fax: +11 3031 3009 e-mail: sj@psj.org.br |
|
| Copyright: IEAB - Paróquia de São João - 2007 |
Site by Virtually Host by Microeng |
|
|
 |