História de nosso Templo
Os Pioneiros

O marco primordial da imigração japonesa ao Brasil foi a chegada do navio Kasato Maru ao porto de Santos no ano de 1908. As famílias de imigrantes chegavam para trabalhar na lavoura, e no caso de São Paulo, nas plantações de café. Por volta de 1925, muitos imigrantes fixavam-se no campo em outras atividades agrícolas que não a cafeicultura, tornado-se eventualmente em pequenos proprietários rurais. Foi assim com várias famílias e missionários que formaram a Paróquia.

O Rev. Yasoji Ito, após ter sido um de apenas três sobreviventes de um naufrágio em 1910, promete que dedicaria sua vida à causa de Deus se Ele o salvasse. É batizado no mesmo ano, estuda no seminário da Igreja Episcopal em Osaka e vem ao Brasil como missionário.

O Rev. Estevam Yuba, que foi reitor da Paróquia de São João, partiu do Japão com 15 anos de idade, estabelecendo-se com sua família na Colônia Aliança, em Pereira Barreto, interior paulista. Ao escrever sobre esse período, diz:

"Poderíamos dizer, numa frase, que era um mundo onde teríamos que começar costurando cada uma de nossas roupas para nos vestir. Não que tenhamos caído no mais profundo abismo da vida, mas que fomos libertos do velho mundo e agora nossa imagem era... simplesmente nus. Para os jovens, um mundo alegre e divertido".

O saudoso Sr. Sazuko Asakura, Tenente Coronel da Aeronáutica, descreve os primeiros meses de sua família em São Paulo, acolhidos na paróquia de São João após mudarem-se de Birigui em 1933.

"Éramos em seis mais a família do reverendo. (...) Tínhamos que dormir na nave da Capela. Para isso, a arrumação e desarrumação do altar e dos bancos era constante para as celebrações dos cultos e outros ofícios. Até que, com a ajuda do reverendo, os Asakuras conseguiram arrendar uma pequena chácara a uns 3 Km da Igreja e lá plantavam verduras e forneciam para o mercado de Pinheiros".

Não podemos deixar de citar outros pioneiros que trabalharam para a evangelização dos japoneses, como Kiyoshi Iço, Guenzo Ono, Takeo Shimanuki.

Da Guerra à Paz

No ano de 1942, o Brasil declara guerra aos países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão, trazendo dificuldades para a colônia japonesa, encerrando também o ciclo migratório iniciado há mais de trinta anos. As viagens eram controladas, com a necessidade de se obter autorizações para ir de uma cidade à outra, as aulas de língua japonesa se tornaram clandestinas e os estudantes precisavam esconder seus livros, e muitos precisaram destruir documentos e diários em língua japonesa para evitar problemas com o Estado brasileiro. Em 1945, a comunidade nikkei dividiu-se entre "vitoristas" (kachigumis) que não acreditaram na rendição do Japão, e "derrotistas" (makigumis) que acreditaram. Essa tensão perdurou por alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Logo após o fim da guerra, foi organizado na paróquia um bazar para angariar fundos e outros bens (roupas e alimentos), com o fim de ajudar na reconstrução do Japão. Segundo Ayako Ito, esposa do Rev. Yasoji Ito, "Até a normalização das relações diplomáticas entre o Brasil e a nossa pátria Japão, contamos com a simpatia do arcebispo Thomas e da Sede Central da Missão Norte-americana que nos arranjou um canal para que pudéssemos enviar dinheiro ao Japão para confortar as pessoas e ficamos muito gratos".

A década de 1950 trazia novos ventos no que se tornaria em uma era democrática. Os jovens da Paróquia participantes da UME (União da Mocidade Episcopal) desenvolviam atividades culturais como estudos, viagens e atividades esportivas. Destaca-se nestas atividades os jogos de vôlei do Torneio Intermocidade, que começara de forma despretensiosa em julho de 1954, com times representando as igrejas da Federação Evangélica Nikkei. Este evento tornou-se um importante marco para a confraternização das igrejas envolvidas. O encerramento oficial - geralmente na ACM no centro da cidade - ocorria no mês de agosto, e algumas partidas decisivas eram disputadas. Além do vôlei, outros esportes também eram praticados, como o pingue-pongue e futebol de salão.

Com o crescimento da comunidade, na década de 1960 foi elaborado um projeto para a construção de nova capela, cujo projeto foi elaborado pelo arquiteto Motoi Tsubouchi. Construída no local onde ocorriam os jogos de vôlei e outras atividades esportivas, foi inaugurada no ano de 1967. Nesta mesma época, a igreja nacional emancipara-se da Igreja Episcopal (EUA), tornado-se em 1965 na 19a. Província da Comunhão Anglicana.

Decorrido um período de tempo da inauguração do terceiro templo, foram criadas missões em outros bairros da cidade, como na Liberdade e na Vila Clementino.

Tempos de Transformação

Baseando-se na Lei 7.104 de 1968, a prefeitura de São Paulo iniciou no ano de 1993 um processo de desapropriações nos bairros de Pinheiros e Vila Olímpia, com o projeto Boulevar Sul. Este projeto iria modificar por completo o tecido urbano da região, organizando os bairros em diferentes zonas de intervenção para a criação de áreas ajardinadas, prédios comerciais e hotéis, afetando todos seus habitantes. Assim surgiu o Movimento Pinheiros Vivo, uma organização de moradores e comerciantes com o intuito de preservar as características históricas e tradicionais do bairro.

Esta questão polêmica também afetou a vida da congregação. A Paróquia de São João cedeu seu espaço para as reuniões mensais do Movimento. Com o apoio de vários partidos políticos, tanto de esquerda como de direita, além de outros movimentos civis, a Paróquia lutou para que o seu templo não fosse demolido e o bairro descaracterizado. Ressaltamos o apoio de D. Paulo Evaristo Arns, então Arcebispo de São Paulo, e do Rabino Henry I. Sobel, além de outras denominações cristãs. Recebemos também cartas de solidariedade do então Secretário Geral da Comunhão Anglicana, Rev. Côn. Samuel Van Culin, do Arcebispo da Cidade do Cabo, Revmo. Desmond M. Tutu, laureado com o Prêmio Nobel da Paz, entre outras tantas correspondências.

Ao final, a prefeitura levou adiante apenas a ampliação do traçado da Av. Faria Lima, derrubando o templo da Paróquia na noite do dia 10 de janeiro de 1995 após enfrentar a resistência dos paroquianos.

Após a demolição, foi celebrada uma cerimônia ecumênica de solidariedade à Paróquia em 15 de janeiro de 1995, com a presença de Dom Angélico Bernardino, representando o arcebispo de São Paulo, do Bispo Geoval Jacinto da Silva da Igreja Metodista, entre outros.

OS TEMPLOS AO LONGO DA HISTÓRIA

Janeiro de 1933 – 1a. missa no templo da antiga fábrica de tijolos

1944 – Segundo templo e casa pastoral, projeto de Takeshi Suzuki

1966 – Terceiro templo, projeto de Motoi Tsubouchi

2002 – Quarto templo, projeto de Ruy Othake

Em Busca de um Novo Rumo

Com a demolição do templo no ano de 1995, a comunidade viu-se envolta em debates acalorados sobre quais rumos tomar. Após muitas deliberações, optou-se no ano de 1996 pela construção de nova capela, projetada pelo arquiteto Ruy Othake. No período de construção, as celebrações foram temporariamente transferidas para o local que no passado fora a Missão da Ressurreição, no bairro da Liberdade. Com a consagração do templo em 2002, a paróquia pode continuar a exercer plenamente sua missão: "adorar a Deus e pregar o evangelho de Jesus Cristo, gerando discípulos e vivendo em comunhão, priorizando pessoas e servindo ao nosso próximo, motivados pelo amor a Deus".

Caminhando para o Centenário

Agora três quartos de século se passaram desde o momento que foi celebrada a primeira missa. Com o decorrer de todos esses longos anos, a Paróquia sente-se agradecida pela participação, além do Rev. João Yasoji Ito, dos pastores, reitores e coadjutores que passaram por esta comunidade: Rev. Lourenço Shimanuki, Rev. Estevam Shigeuru Yuba, Rev. André Tsuneo Matsuo, Rev. Yoshiia Kinpara, Bispo D. Hiroshi Ito, Rev. Yoshiro Yoshizawa, Rev. Hansen, Rev. Arc. Flávio Irala, Rev. Jaci Maraschin, Rev. Takashi, Rev. John Goode, Bispo D. Sumio Takatsu, as freiras missionárias Ir. Taira e Ir. Maria da comunidade Nazaré do Japão.

Outros pastores que colaboraram com a Paróquia são o Rev. Ono, Rev. Kaneko, Rev. Kiyoshi Iço, sem contar as inúmeras pessoas que contribuíram e continuam a cooperar para o enriquecimento da obra do Senhor.

O Bispo D. Sumio Takatsu, falecido em 2004, teólogo e bispo emérito da Diocese Anglicana de São Paulo que contribuiu com o clero da paróquia após resignar ao cargo de bispo diocesano, uma vez proferiu em um culto de memória: "(...) lembrar nossos entes queridos diante de Deus é louvar essa obra de Deus demonstrada na morte e ressurreição de Jesus. Lembrar tem uma outra dimensão... se desdobrar numa outra súplica: que eles e nós estejamos numa comunhão dos santos e que no tempo, essa comunhão se manifeste em toda a plenitude, de modo que todos estejamos reunidos diante de Deus..."

Desta forma, ao pensar no futuro, lembremos antes não só daqueles que já partiram, mas também de todos nossos irmãos e irmãs que mesmo de maneira discreta, foram e ainda são essenciais para escrever as histórias desta comunidade. E com paz e alegria jubilosa no coração, caminhemos com muitas bênçãos para o centenário da Paróquia.