Luteranos, Católicos, Metodistas, Reformados e Anglicanos “atraídos para uma comunhão mais profunda”

Um acordo entre as Igrejas Luterana e Católica Romana que resolveu um dos desacordos históricos no centro da Reforma foi o foco de uma celebração especial na Abadia de Westminster no dia 31 de outubro. Neste dia, há 500 anos, Martinho Lutero deu início à Reforma ao publicar suas 95 testes nas portas da Igreja de Todos os Santos – a Schlosskirche – em Wittenberg, Alemanha. Elemento central em sua argumentação estava o princípio teológico que o homem pode se reconciliar com Deus – justificação – apenas por meio da fé, em vez de boas obras, arrependimento, ou pela compra de indulgências.

Quando a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação em 1999, você resolveu a questão teológica subjacente de 1517, em um momento decisivo para todas as igrejas que buscam pela unidade e reconciliação”, disse o Arcebispo de Cantuária Justin Welby, durante a celebração na Abadia de Westminster.

A declaração conjunta (JDDJ) de 1999 desde então foi adotada pelo Conselho Metodista Mundial em julho de 2006, e pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas em julho deste ano. Ano passado, em seu encontro em Lusaka, Zâmbia, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) “acolheu e afirmou” a substância do JDDJ. O ACC disse que “reconheceu que os Anglicanos e Luteranos compartilham uma compreensão comum da justificação da graça de Deus… que somos considerados justos e somos justos diante de Deus somente pela graça através da fé por causa dos méritos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e não por causa de nossas obras ou méritos”.

O Arcebispo Justin Welby apresentou o texto da resolução do ACC ao secretário-geral da Federação Luterana Mundial, Rev. Dr. Martin Junge; e ao secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Bispo Brian Farrell. O ato foi testemunhado pelo Rev. Ivan Abrahams, secretário-geral do Conselho Metodista Mundial, e pelo Rev. Dr. Chris Ferguson, secretário-geral da Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas.

A apresentação pública da resolução do ACC no Dia da Reforma foi um passo significativo em direção à unidade da igreja, disse o Dr. Junge. “Somos gratos a Deus de que juntos com nossos irmãos e irmãs católicos, metodistas e reformados, que nós estamos testemunhando hoje a afirmação da substância da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação pela Comunhão Anglicana. Que este momento sirva como um testemunho importante no caminho da crescente unidade entre nossas igrejas”.

A assistente do secretário-geral da Federação Luterana Mundial, Revda. Dr. Dr Kaisamari Hintikka, é responsável pelas relações ecumênicas com a Federação. Ela expressou sua alegria por aquilo que inicialmente foi uma declaração bilateral entre luteranos e católicos, se tornou em um documento de propriedade de cinco comunhões cristãs mundiais.

O fato de que todas as Igrejas históricas do ocidente agora compartilham um entendimento comum da justificação é uma maneira maravilhosa de marcar o aniversário da Reforma”, disse ela. “Aquilo que costumava nos dividir, agora na verdade nos une”.

Foi um ponto compartilhado pelo Bispo Farrel, que disse que “a convergência neste ponto leva os cristãos luteranos, católicos, metodistas, reformados e anglicanos em uma comunhão mais profunda, no caminho da completa reconciliação das Igrejas, como o Senhor deseja”.

Nos alegramos que a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada solenemente pela Federação Luterana Mundial e pela Igreja Católica Romana em 1999, também tenha sido assinada pelo Conselho Metodista Mundial em 2006 e, durante este ano de comemoração da Reforma, pela Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas”, informou em uma declaração o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. “Neste mesmo dia está sendo acolhida e recebida pela Comunhão Anglicana em cerimônia solene na Abadia de Westminster. Nesta base, nossas comunhões cristãs podem construir laços ainda mais próximos de consenso espiritual e testemunho comum no serviço do Evangelho”.

Nós reconhecemos com estima os muitos eventos de oração e adoração comum que luteranos e católicos realizaram juntos com seus companheiros ecumênicos em diferentes partes do mundo, assim como encontros teológicos e publicações significativas que deram substância a este ano de comemorações”.

No sermão, o Arcebispo Justin reconheceu a dolorosa história por trás daquilo que chamou “o presente” da Reforma. Foi primeiro, disse ele, “um momento de esperança, então controvérsia, então de política, e, por fim, guerra. No entanto, na providência e graça de Deus, trouxe de novo a todo discípulo de Cristo a possibilidade de dizer: ‘Não estou com vergonha do Evangelho, pois ele é o poder de Deus para a salvação’”.

Ele disse: “Por meio da Reforma, o mundo mudou; o Evangelho se espalhou; a Contrarreforma renovou os lugares que a Reforma não alcançou; houve um impulso competitivo no esforço missionário. O que não é para celebrar?”, brincou.

Bem, disse Bisonho ao Tigrão, ou o historiador ao entusiasta. Para cada coisa que veio por meio da Reforma – o quão bom seja, precioso e até mesmo além de comparação – para cada um também há um lado negro”.

Com novo vigor veio o conflito. Com a compreensão individual da graça veio o individualismo e a divisão. Com o conhecimento que ‘Sem ti, não podemos te agradar’ veio, por meio de nosso pecado e fraqueza, aquilo que muitas vezes incluímos sob nossa respiração: ‘Mas, na verdade, eu sou muito mais capaz de te agradar do que aqueles hereges ali’”.

Com educação e liberdade vieram novas maneiras de crueldade, refinadas pela ciência. Com os missionários trazendo a fé vieram os soldados trazendo a bandeira”.

Podemos continuar jogando a bola de um lado para o outro, como historiadores e teólogos tem feito por séculos. O ponto é que a Reforma reabriu a toda a igreja verdades eternas que são indispensáveis, e pelas quais todos nós devemos continuar a manter, e não apenas a manter mas a apresentar novamente abordando a vida de hoje”.

O Arcebispo continuou: “O Evangelho sempre diz que nós não podemos acrescentar nada ao trabalho de Cristo, e que em Cristo, Deus falou definitivamente. Que as Escrituras testemunham confiavelmente na palavra que Deus falou, e que quando liberadas e confiadas, trariam o florescimento humano. Ao mesmo tempo, nosso testemunho é dificultado pelas divisões – especialmente enquanto vivemos em um mundo sempre presente de concorrentes filosofias, fés e abordagens à fé ou rejeição da fé”.

Então, qual o problema? O problema, como em todas as épocas, somos nós”.

A Reforma, disse ele, “foi um presente de Deus, não apenas em si mesma, mas como um sinal de confiança de Deus em Seu trabalho de revelar as boas-novas de Jesus a um mundo em necessidade, e a fidelidade de Deus ao usar a igreja dele apesar de nossas falhas”.

“O que faremos hoje com o presente? Estaremos dispostos a sermos reformados agora e sempre, deixando de lado nossas diferenças, pois fomos pegos na graça que é encontrada por meio da fé? Encontraremos em Deus apenas a força e graça de sermos uma bênção unida em Seu mundo, para que então nosso testemunho de unidade na diversidade supere nosso medo de um do outro?”

“Vamos aproveitar de novo em confiança a esperança de que Deus, que nunca abandona a Sua igreja, novamente nos reformará, para que o mundo possa ver que Jesus veio do Pai?”

Isto já está acontecendo, de tantas maneiras, disse ele, mas acrescentou: “Ainda não nos permitimos o suficiente a sermos capturados pela radicalidade do Evangelho para que possamos abençoar o mundo como deveríamos. Enquanto nos rendemos a Deus que resgata a nós pecadores, certamente encontraremos nossa vocação como mensageiros de boas novas para o mundo”.

O 500º aniversário da Reforma foi marcado pelas Igrejas em todo o mundo.

Publicado em 31/10/2017 no site Anglican Communion News Service.