Amor revolucionário: Palestra do Arcebispo Justin sobre evangelização

O Arcebispo de Cantuária Justin Welby definiu sua visão para uma Igreja na qual todo cristão compartilha o “amor revolucionário” de Jesus Cristo.

O Arcebispo deu a conferência inaugural das Palestras de Lambeth em 04 de março de 2015, uma série de palestras com palestrantes convidados que falarão sobre questões centrais para a Igreja.

O texto completo da palestra segue abaixo.

Palestra de Lambeth do Arcebispo de Cantuária

Palácio de Lambeth, 04 de março de 2015.

Quero começar dizendo apenas duas simples frases sobre a igreja. Primeiro, a igreja existe para adorar Deus em Jesus Cristo.

Segundo, a Igreja existe para criar novos discípulos de Jesus Cristo. Tudo mais é decoração. Algumas são muito necessárias, úteis, ou maravilhosas decorações – mas são decorações.

Quando falo sobre criar discípulos a medida que avançamos, é claro que não estou falando apenas de palavras; também estou falando de ações, e nós vamos voltar nisto daqui a pouco.
Quando me tornei Arcebispo de Cantuária dois anos atrás, anunciei minhas três prioridades. Em primeiro lugar, orar e renovar a vida religiosa. E o meu palpite é que houve acenos de concordância e interesse, mas dificilmente uma surpresa.

Na notícia de que a reconciliação era minha segunda prioridade, provavelmente houve um ligeiro interesse e murmúrios de aprovação de que isto era uma Boa Coisa, mas que alguém teria um trabalho muito difícil.

Quando introduzi minha terceira prioridade como evangelização e testemunho, eu imagino que alguns, talvez uma minoria, estava celebrando, enquanto outros pararam e olharam para o vazio com um olhar de horror, pensando, “Oh, caramba, lá vamos nós de novo”. Não vou perguntar em qual grupo vocês se encaixam.

Nesta noite, é desta prioridade que quero falar. Defender essa causa não é apenas uma prioridade para qualquer velho Arcebispo de reposição sem muita coisa para fazer; mas a prioridade da igreja de Jesus Cristo, algo que é atestado no primeiro dos Cinco Marcos de Missão da Igreja Anglicana: “Proclamar as Boas Novas do Reino”.

Tentarei definir os meus termos, e então colocá-los no contexto do que a Igreja é chamada a fazer, e a partir daí espero abordar o escopo e motivos da evangelização, antes de abordar alguma prática.

Buscarei, então, enraizar isto na vida e testemunho da igreja local e mais especificamente na vida e testemunho de todos os cristãos – não apenas nos profissionais.

Essa é a nossa paixão especial, prioridade e foco. Na verdade, o que todos nós nos esforçamos a fazer é feito com a intenção de que servimos e permitimos que a vida de todo seguidor de Jesus seja um testemunho fiel do amor transformador de Deus.

Não tenho ilusões da mudança sísmica que precisa acontecer para que isto aconteça. Mas uma mudança sísmica é o que precisamos. Pois este país não conhecerá o amor revolucionário de Cristo pelas estruturas ou clero da igreja, mas pelo testemunho de todos os cristãos.

É claro que há outras palavras disponíveis para evitar a temida palavra “e” de evangelização. Por que não falar de “missão”? É muito mais inclusiva e abrangente, e é algo que todos nós, eu inclusive, somos apaixonados. Esta é a minha razão por me afastar dela.

Não tenho nada contra a missão – muito pelo contrário: a recente renovação da apropriação do termo pela Igreja tem sido animador. Mas seu uso é tão amplo que o uso do termo pode me dar a sensação que este estar comprometido com a missão poderia significar que estou comprometido com tudo.

Não, eu quero que o chamado esteja focado na específica proclamação das Boas Novas. Com o que se parece para a Igreja neste país encontrar sua voz nestes dias?

Obviamente há muita coisa que foi escrita sobre este tema das Boas Novas, o Evangelho, e bastante coisa ainda será. Nós nunca chegaremos às profundezas das maravilhas do Evangelho; sempre haverá mais a ser dito.

Não estou tentando entrar neste debate, além de dizer que o Evangelho são as Boas Novas de Jesus Cristo. É o anúncio de uma pessoa na história, e que Deus fez isto nesta vida específica para todos que já viveram e que ainda viverão.

Me pergunto se poderia usar uma pintura para representar o Evangelho. A pintura é Vocação de São Mateus, e foi pintada por Caravaggio por volta de 1599. O historiador de arte Sir Kenneth Clark a considerou a obra de arte que mudou a história da pintura:

Vocação de São Mateus, Caravaggio, c. 1599.

Vocação de São Mateus, Caravaggio, c. 1599.

É uma representação da cena no Evangelho de Mateus (Capítulo 9) quando Jesus chama o coletor de impostos Mateus a segui-lo. A pintura mostra Mateus no meio, cercado por quatro colegas.

Perceba os adornos daqueles que estão envolta da mesa em contraste com as roupas de Pedro e Jesus descalços à direita. Dois dos coletores de impostos no canto esquerdo da pintura sequer olham para cima, de tão concentrados estão em contar o dinheiro.

Entre estes cinco homens e Jesus você notará uma barreira de escuridão. Toda luz veio com Jesus – a figura no extremo direito da pintura – como você perceberá que a partir dele, e não da janela que podemos ver a cruz, a luz está surgindo.

Evangelização são as Boas Novas da chegada de Jesus Cristo neste mundo sombrio. E são novas não simplesmente por sem esta luz estarmos no escuro, mas por ela vir a nós sem aviso, espontânea, sem a nossa iniciação.

Jesus vem a nós. Este é o livre trabalho de Deus de trazer luz à escuridão. Não é técnica, não é manipulação, não é organização, não é sistema… é Deus. É Deus em estado natural.
Os homens na pintura não estavam procurando Jesus; Ele chega a eles e transforma seu mundo. Na verdade, Ele causou grande ruptura. Jesus é a luz de todas as pessoas; Ele vem para todos e por todos. Longe dele há apenas a escuridão. Ele não vem apenas àqueles que o buscam, ou para aqueles que têm interesse neste tipo de coisa.

Caravaggio traz drama à pintura por meio da mão estendida de Jesus. Esta mão salienta Mateus. É uma escolha definitiva – um convite particular. Jesus vem e alcança cada um de nós.
E aqueles que viram primeiro a pintura não tinham dúvidas do que Caravaggio insinuava – note a semelhança entre a mão de Jesus e as mãos de sua cena no teto da Capela Sisitina.

A mão de Jesus é tanto a mão do segundo verdadeiro Adão como de Deus. O Evangelho é o chamado do próprio Deus por meio do verdadeiro homem Jesus Cristo. É um ato de criação, e redenção; um trazer à existência, uma vocação que dá vida, que só é possível pela iniciativa de Deus.

Detalhe da pintura Vocação de São Mateus, Caravaggio, c. 1599.

Detalhe da pintura Vocação de São Mateus, Caravaggio, c. 1599.

Nós não concretizamos esta alteração, mas tem sido efetuada – e é feita – independente de nós, na morte e ressurreição de Jesus. Não contribuímos para isto; mas nós estamos vivos por causa disto.

Todos nós sabemos disso. Mas enquanto nos apossamos desta verdade, somos impelidos para fora no mundo. Porque enquanto essa verdade nos agarra, lembramos que isto não somos nós, isto é Deus. Esta não é uma estratégia de sobrevivência para a Igreja. Isto é Deus. É Deus em estado natural.

Mateus claramente não pode acreditar que este convite e ordem estava endereçada a ele. Poderia ele ter tanta sorte? Certamente houve algum erro. Você pode vê-lo pensando – “Eu? O quê, eu? Você está brincando. Cara errado. Há outro Mateus rua abaixo”. Que coisa ele poderia ter feito para ter garantido esta ação de Deus em seu nome?

O Papa Francisco disse: “Aquele dedo de Jesus, apontando para Mateus. Sou eu. Me sinto como ele. Como Mateus. É o gesto de Mateus que me impressiona: ele segura seu dinheiro como dissesse ‘Não, eu não! Não, este dinheiro é meu.’ Aqui, sou eu, um pecador a quem o Senhor voltou seu olhar”.

Isto faz com que as pessoas lembrem de algo? Este lindo, maravilhoso momento quando você percebe que Jesus cuida de você, de mim, e não odeia, não engana, não é indiferente, mas é plenamente compelido e envolvente no amor, dizendo “siga-me”.

Como cristão, é minha mais profunda convicção de que Jesus Cristo, Deus, vem chamar a cada um que ele fez. Todos são convocados em Jesus Cristo. Pois, em Jesus Cristo, Deus espalhou seu amor e sua graça, seu perdão e sua misericórdia, sua fidelidade. Deus não faria isto sem mim ou você.

Evangelização então é a alegre proclamação do que aconteceu. São as novas sobre Jesus Cristo. Sua vida como a luz que irrompe a escuridão do mundo para nós. Sua morte como a fonte de nossa redenção. Sua ressurreição como a esperança de todos nós. Estas novas precisam ser ditas, ou como as pessoas saberão?

Vivemos em um mundo no qual a esperança está cada vez mais em falta. O cinismo sobre a política é o oposto da esperança. O medo é o oposto da esperança. Quando não há esperança, nos voltamos uns aos outros para nos dar segurança – temporariamente, brevemente. Quando nos enchemos de esperança, todas as coisas se tornam manejáveis, até mesmo os grandes medos. Quem pode se manter quieto sobre tal fato?

Em 1525, William Tyndale supostamente em um momento foi preso por um de meus predecessores no alto de uma torre, e lá, disse isto: “Euangelio (que nós chamamos de evangelho) é uma palavra grega, e significa bom, feliz, alegre e rejubilante notícias, que tornou o coração dos homens felizes, e fez os hinos cantarem, dançarem e pularem de alegria”.
Mas antes de me juntar a Pedro e continuar o ministério de Jesus de chamar todos a seguir, preciso ser eu mesmo quem escutou ao chamado. Sou receptor desta luz que invadiu minhas trevas. É como alguém que recebeu isto que ofereço este pressente.

Isto requer minha constante, diária conversão. Uma das grandes frases da espiritualidade Inaciana é o chamado à conversão diária. Para receber diariamente, como Cipriano denominou, “um grande gole de graça”.

Para mim, graça (grace) é a palavra mais bonita da língua inglesa. É muito evocativa de tudo. O fato de que o Evangelho se repete para mim como pecador e me surpreende com a notícia de que sou amado, aceito, perdoado, redimido e escolhido em Jesus Cristo.

Meu diretor espiritual esteve aqui na terça-feira, um extraordinário monge suíço com o qual converso de tempos em tempos, e ele celebrou a missa na Capela da Cripta. Foi um momento maravilhoso quando aqueles entre nós que não são Católicos receberam a bênção e os Católicos receberam a Eucaristia – o oposto do que tem sido o padrão normal aqui. E sentimos a dor da separação da Igreja.

E ele falou e ele disse: “Nós não podemos fazer nada exceto pela graça”. É sua maior frase: “C’est tout grâce”. É tudo graça.

Cada dia o Evangelho vem de novo para mim como pecador e me surpreende com a notícia de que sou amado, aceito, perdoado, redimido e escolhido em Jesus.

Devemos abrir a nós e a Igreja para a contínua conversão na qual o Espírito trabalha em nós. A Igreja deve continuamente ser convertida a partir da redução do Evangelho em sua plenitude.

Não podemos deixar as coisas como elas estão, mas podemos experimentar a graça melhor ao nos curvar diante dela e permitindo, todas as vezes, a começar conosco como se fosse a primeira vez. Até mesmo hoje de noite devo receber Sua graça novamente.

E se todo cristão soubesse apenas receber Sua graça novamente a cada dia, que transformação aconteceria? Isto podemos fazer.

Tendo recebido a bondade de Deus em Jesus Cristo, isto se torna obviamente uma prioridade para nós enquanto sua Igreja para que os outros saibam o que Deus fez por eles.

É claro que a igreja é chamada a orientar tudo sobre Deus – que é chamada a adorar. Mas por causa de quem este Deus é, nós também somos chamados a ser para os outros as Boas Novas que criaram esta comunidade e instruem esta comunidade.

Enquanto a Igreja sempre existe em um tempo e espaço, em uma localidade com pessoas específicas, em uma determinada cultura, é essa Igreja particular. Maravilhosamente, isto é o trabalho de Deus, feito pelo Espírito Santo. E Deus inicia isto em toda igreja, em todo lugar.

Eu fui, como vocês devem saber, Bispo de Durham por alguns minutos. Meu predecessor foi Tom Wright. Ele tem a analogia mais útil para o trabalho da Igreja. Imagine que uma nova peça de Shakespeare fosse descoberta, mas tivesse apenas quatro atos e o último estivesse faltando.

O que faríamos? Ela não seria simplesmente descartada. Chamaríamos os maiores diretores e produtores, os melhores atores, para que se aprofundassem nos primeiros quatro atos e se engajassem com a trama e desenvolvimento, e que trabalhassem juntos naquilo que poderia ser o quinto ato.

Esta é a posição da Igreja. Temos os primeiros quatro atos, temos a trama e as personagens, e agora depende de nós.

Mas não fomos deixados sozinhos. O diretor, o produtor artístico, o prompt e o escritor estão conosco no Espírito Santo É o Espírito que faz a Igreja, todo dia, mais uma vez.

Neste quinto ato, o quê o Espírito nos leva a fazer? Convidar as pessoas a se tornarem, como nós, participantes no drama de Deus.

Karl Barth, um dos maiores teólogos do século 20, disse que “Nenhuma outra tarefa é tão urgente quanto a de espalhar as boas novas na terra e torná-la conhecida”.

É a iniciativa de Deus. Não podemos como sua Igreja proclamar as Boas Novas em nossa própria força ou inspiração. O Espírito vai antes de nós, preparando o terreno para a semeadura. É claro que o vinho do Espírito toma a forma do odre de vinho, então nós como Igreja precisamos ter o trabalho de limpar o caminho de cardos e ervas daninhas, ou de pedras e caminhos espezinhados. Mas apenas o Espírito torna isso possível.

Alguns anos atrás escutei que foi noticiado que era prática em grandes supermercados lançar por meio do sistema de ar-condicionado os cheiros da padaria. Então, ao entrar na loja, nós, o público desavisado, seria recebido pelo aroma do pão fresquinho, e então nós desejaríamos o pão.

Me parece que esta é uma maneira pouco sofisticada de interpretar um dos condutores decisivos do Novo Testamento quando tratamos de evangelização: é o trabalho do Espírito, o “intermediário de Deus” [Taylor], a preparar os corações, desejos, mentes e sentidos das pessoas que possam receber a mensagem de Deus. É por isso que oramos – para que Deus prepare.

Simon Tugwell, um teólogo carismático Católico Romano, foi um daqueles que cunhou o título de “o Espírito que dá voz” para o Espírito Santo. O Espírito possibilita a alegre proclamação da Igreja, ao contar as Boas Novas de Jesus Cristo – novas que são literalmente ‘novas’ para as pessoas.

Tugwell rastreou a tradição dos primeiros cristãos que relacionava a salvação à abertura da boca pelo Espírito Santo. Mais uma vez o Novo Testamento define isto: é o Espírito que nos chama a dizer “Abba, Pai” e “Jesus é o Senhor”. Mas por que fazer isso?

Sabemos o quão importante são os motivos em detalhes e o quadro geral. Gandhi disse: “No momento que há suspeita sobre os motivos de uma pessoa, tudo que ele faz fica infectado”.

Quão frequentemente olhamos para a Igreja e imaginamos o quê ela realmente quer? Ou o quê nós realmente queremos? Ou o quê eu realmente quero?

No entanto, a Igreja recebe tantas reputações por motivos diversos.

Talleyrand, o grande diplomata francês, que conseguiu trabalhar para a família real francesa até a revolução de 1789, trabalhou para os revolucionários, trabalhou para Napoleão, e voltou a trabalhar para a família real francesa em 1815 no Congresso de Viena, morreu durante o Congresso de Viena. E quando Metternich, o Chanceler Austríaco, que era tão inteligente em suas manobras, soube que Talleyrand falecera, disse: “Hum, o quê ele quer dizer com isto?” [risadas]

Nossa motivação condutora desta prioridade para a Igreja não, não, não – nunca, nunca, nunca – é que os números que estamos vendo estão baixos e o futuro parecer bastante sombrio. Esta não é uma estratégia de sobrevivência.

Isto não é dizer que de alguma maneira sou indiferente com relação ao desafio sísmico enfrentado pela igreja. Mas a evangelização não é uma estratégia de crescimento.

É claro que queremos ver igrejas cheias. Mas isto não é ansiedade para uma instituição, ou pior ainda, auto-sobrevivência.

A definição de pecado de Martinho Lutero como um coração curvado sobre si mesmo aqui é instrutiva para nós. A Igreja que está preocupada primariamente com sua própria vida ou sobrevivência, uma igreja que está curvada em si mesma, está assinando sua própria sentença de morte.

Como o maravilhoso missiólogo Lesslie Newbigin disse: “Uma igreja que vive apenas para si mesma e para seu próprio crescimento é um testemunho contra o evangelho”. Alguém poderia dizer que tanto a falta de ação como muita ação frenética levemente mascaram a falta de confiança na suficiência de Deus.

O que compele esta prioridade é o mesmo motivo que compeliu os primeiros proclamadores; que compeliu o grande relatório de 1945 do Arcebispo William Temple, “Rumo à conversão da Inglaterra” (Towards the conversion of England); que compeliu o evangelista Billy Graham; que compeliu a década de evangelização; e de todos os relatórios e publicações do Sínodo Geral; e da maravilhosa encíclica Evangelii Gaudium do Papa Francisco.

Está resumido em 2 Coríntios 5:14-15: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.

É o amor de Cristo que nos compele. Todas as vezes que penso nisto, reflito em quantas vezes falhei em agir em nome do amor de Cristo, e, portanto, como não surpreendentemente há pouca resposta.

Todos têm o direito de escutar o Evangelho, e como cristãos, temos o dever de proclamar as Boas Novas sem excluir ninguém.

A única qualificação para escutar as Boas Novas é que você não conheça Cristo – e não são apenas boas novas; mas notícias verdadeiras. De fato, é apenas por serem verdadeiras que são boas. E se são verdadeiras, são verdades para todos, e não devem ser escondidas de qualquer um.

O amor que nos encontrou em Cristo nos compele, ou nos constrange a falar. Assim como nosso amor por todos que Deus criou.

John Chrysostom, Arcebispo de Constantinopla, que faleceu em 407 d.C., disse algo similar:

“Nada é mais mortal do que um cristão que é indiferente à salvação dos outros. Na verdade, imagino se tal pessoa pode ser chamada de verdadeiro cristão. Se tornar discípulo de Cristo é obedecer sua lei de amor; e obedecer a lei nos traz alegria além da medida e descrição. Amor significa querer o melhor par os outros, compartilhando com eles a alegria do amor. Então o cristão se sente compelido a falar aos outros sobre a lei do amor, e a alegria de obedecer esta lei. É claro, muitas pessoas são tímidas ao falar com outros; em seus casos as ações motivadas pelo amor serão o testemunho mais eloquente. Mas aqueles que não são tímidos certamente quererão expressar sua alegria em todas as oportunidades. Não há necessidade de usar palavras finas ou frases elegantes”.

O Evangelho é qualquer coisa menos previsível. Becky Pippert diz: “Evangelizar não é memorizar técnicas para usar em vítimas ingênuas”. Tampouco é uma competição interna da igreja – e mesmo assim fazemos isto. Mas é Deus quem faz isso.

O mesmo Espírito que nos dá a fala possibilita a que proclamação do Evangelho seja sempre nova e sempre distinta. Esse é o Espírito que, como Eugene Peterson diz, “sempre tem um endereço”.

No Pentecostes, o Espírito que dá voz permite que a notícia de que tudo se abriu para ser proclamado de maneira tangível e compreensível. Este é um evangelho, Lucas nos diz, para todo o mundo.

Se o Evangelho é melhor e mais autenticamente dito de pessoa para pessoa de uma forma que é particular ao ouvinte, durante o Pentecostes, é essencial a tarefa de traduzir o evangelho em palavras e conceitos compreensíveis. E o processo da tradução do evangelho é profundamente interativa. Nós não simplesmente chegamos com um conjunto de palavras gramaticalmente relacionadas, ou um sistema de ideias. É uma estória que cria história, e precisamos prestar atenção no que Deus já está fazendo e movimentando, pois o trabalho de Deus não começa conosco. Começa com ele.

Em todos os aspectos Jesus Cristo é o prumo para nossa anunciação, pois ele permanece não apenas como o fato central da fé cristã, mas seu ponto determinante.

Nosso cuidado constante deve ser a proclamação das Boas Novas de uma maneira que seja apropriada e conveniente para Jesus. Isto é óbvio, mas muitas vezes nós as ajustamos às nossas necessidades. Como na cama da antiga lenda de Procusto – quando ele tinha convidados em seu castelo, se este fosse muito pequeno para a cama, ele o prenderia a um leito para esticá-lo, se fosse muito grande, ele o cortaria para servir no tamanho.

Muitas vezes queremos ajustar as pessoas que não são cristãs em nossa igreja, e não fazer com que a igreja sirva aos novos cristãos.

O Evangelho pode ser proclamado de uma maneira que nega justamente aquilo que proclama. Podemos fazer a coisa certa de maneira tão errada que ela se torna na coisa errada. Qualquer coisa manipuladora ou coercitiva, qualquer coisa desrespeitosa ou controladora, é descartada por Jesus ser quem é.

Dito isto, está claro que Deus gloriosamente tolera todas as maneiras de anunciar as Boas Novas que estão longe do ideal. Por exemplo, ele me usa. [Risos]

Tendo insistido que tenhamos cuidado em dizer as Boas Novas de maneiras que sejam boas notícias, sou persuadido que a confissão de fé em todas as línguas e culturas são possíveis pelo caráter distintivo da ação de Deus.

As boas notícias cristãs não podem se tornar nas más notícias para as pessoas de outras crenças, mas não podemos nos furtar do verdadeiro compromisso.

Não é antiético apresentar o Evangelho com amor, graça e gentileza nascidas da verdadeira confiança. O privilégio de viver em uma democracia livre e madura é que podemos tanto ser responsabilizados por aquilo que fazemos como pelo que professamos, enquanto temos a liberdade de orar com expectativa e falar intencionalmente o que sabemos ser o amor transformador de Cristo.

Esta é uma liberdade para se apegar. Se nossa motivação for realmente o amor e o chamado divino, então nós devemos compartilhar nossa experiência de Cristo com um e todos.

Tendo apresentado o motivo para a evangelização, vamos pensar em como podemos fazê-la.
O antigo adágio é atribuído a São Francisco de Assis: “Pregue o evangelho todo o tempo, e quando necessário, use palavras”. Coloque de lado, deixe, esqueça. Sequer pense sobre isso. Principalmente pelas razões que ele quase certamente não disse, e mesmo que tenha feito, estava errado. Como disse a personagem Sweeney de T.S. Eliot: “Preciso usar palavras quando falo com você”.

Mas para que saibamos como falar e proclamar, precisamos escutar e conversar. Somos aqueles que escutaram o Evangelho, e nossa recepção às Boas Novas nos moldou.

Luke Bretherton da Duke University na Carolina do Norte disse isto:

“A ordem misericordiosa de escutar primeiro está sempre presente, enquanto não podemos presumir saber o que precisa ser dito e feito a estas pessoas, neste lugar, neste momento, se for para elas realmente escutarem e habitarem no Evangelho. Escutar a Deus e ao vizinho é a condição prévia de proclamar a Palavra que, como palavra humana, pode ser escutada apenas em dialetos”.

Escutar e falar com Deus é onde começamos. Isto é trabalho de Deus. Ouvidos apenas se abrem, olhos apenas veem, corações apenas se abrem, mãos apenas recebem quando o Espírito trabalha. Na minha cerimônia de sagração, o hino cantado tomou as palavras da regra de São Bento: “Ouça, ouça, Ó minha criança…” (“Listen, listen O my child…”).

A importância da oração não pode ser superestimada. Como São Paulo testemunha: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento”. [1 Coríntios 3:6]

Em oração, nós ativamente reconhecemos que ela e sua prática, ao invocar o Espírito a trabalhar vigorosamente antes e adiante de nós, em nossas palavras e esforços trôpegos.

O objeto da oração de Paulo em Efésios 3 é que seus amigos “tenham o poder, acompanhados de todo o povo de Deus, a compreender o quão amplo e longo e alto e profundo é o amor de Cristo, e conhecer aquele amor que sobrepuja o conhecimento”.

Por exemplo, não há nenhuma evidência de qualquer renascimento da vida espiritual tendo lugar em uma sociedade na tradição cristã ocidental sem a renovação da oração e da vida religiosa. Quanto mais o Senhor faria se não o fizermos de pedir-Lhe?

Hospitalidade, abertura e um profundo desejo de amar e aceitar o outro que não escutou e respondeu ao evangelho são fundamentais para nossa proclamação.

Algumas vezes eu imagino a carta de Bonhoeffer para Eberhard Bethge, na qual ele estabeleceu que a linguagem teológica comum é tão incompreendida que nós poderíamos parar de usá-la por uma geração e reintroduzi-la a novos ouvidos – então nós poderíamos definir nossos termos sem qualquer bagagem que estas palavras tenham acumulado. Palavras como “evangelização”, “evangélico”, “evangelho”, e assim por diante.

No entanto, nós não temos como fazer isto. Seja lá onde levamos o Evangelho, nós temos a certeza de que não sabemos todas as implicações do que significa dizer; “Cristo morreu, Cristo ressuscitou e Cristo voltará”. E quando estabelecemos o convite do Evangelho, há sempre novas nuances e dons para recebermos em como cada pessoa o recebe.

Anos atrás, em uma igreja na qual estávamos adorando, havia alguém que chegou a Cristo de maneira bem inesperada. O impacto naquela igreja foi profundo. O vigário encontrou um desejo completamente novo de evangelizar, assim como ele viu a transformação na vida daquela pessoa, o que ele não perdeu desde então. E isto faz mais de 20 anos. [Essa pessoa] lutou com fé, mas tantas pessoas viram o que era se tornar um cristão e por isso viram a própria esperança que eles tinham.

A melhor evangelização acontece quando o evangelista e o evangelizado aprendem algo completamente novo sobre Cristo.

Tudo o que está cansado ou desgastado, blasé ou sem graça, não começou a lidar com o Evangelho. O Espírito nos inspira a uma criatividade e imaginação maior e mais inspiradora, cooptando cada meio possível de estender o convite, sempre cativante, definitivamente impressionante – convidando todos os nossos sentidos a estarem abertos a ao Seu amor.
Tendo dito que o Evangelho é profundamente pessoal, que quero mencionar o elemento corporativo.

O Evangelho também tem as mais profundas implicações públicas. Lesslie Newbigin de novo: “Um comprometimento sério de evangelizar significa um radical questionamento das suposições reinantes da vida pública”.

Isso não é uma declaração política partidária, apenas para registrar. Está claro em muitos dos comentários que são feitos regularmente na mídia que a base de fé da Igreja não foi apreendida. O ponto de início para todo pensamento e ação é Jesus Cristo, que foi, que é, e que será. Ele não pode ser acomodado ou cooptado. Não podemos dizer, “bem, vamos colocá-lo nisso para deixar mais atraente”.

A simples verdade é que o ressuscitado não pode ser acomodado em qualquer maneira de compreensão do mundo a menos que Ele seja o ponto de partida.

E finalmente, nós pensamos nas pessoas cuja tarefa é proclamar as Boas Novas.
Há, naturalmente, aqueles que têm o dom de definir isso de uma maneira que é mais envolvente e compelente. Nós os chamamos evangelistas.

A igreja, no entanto, é essencial para a evangelização. Não apenas em ação e oração, em atividades e engajamento, mas como local no qual o Evangelho é visto e faz sentido.

O teólogo americano Reinhold Niebuhr perguntou no meio do último século por que a vida da maior parte dos cristãos se parecia como celebridades que endossam produtos que você sabia eles próprios não usavam.

E é claro, o Papa Francisco na Evangelii Gaudium disse, por quê tantas pessoas vão evangelizar parecendo que acabaram de chegar de um funeral?

Isto é, por quê as pessoas acreditam naquilo que falamos sobre perdão e graça, reconciliação e sacrifício, amor e comprometimento, acolhida e aceitação, se quando elas olham na vida da Igreja elas veem algo tão diametralmente oposto a isso?

Lesslie Newbigin, como sabemos, disse “a igreja é a hermenêutica do evangelho”. O instrumento de interpretação. Pois nossas palavras devem ser apoiadas pela integridade.
A vida institucional da Igreja deve refletir, permitir, promover e falar as Boas Novas.

Como nossa vida estrutural reflete e fortalece nossa proclamação? Precisamos insistir que todas nossas estruturas e comitês, orçamentos (que são meramente teologia em números) e planos sejam apropriados para Jesus Cristo, e o imperativo de torná-lo conhecido.

O que a Igreja tem que fazer não pode ser determinado por suas instituições; suas instituições devem ser determinadas pelo que precisa ser feito. Evangelizar é bom para nós, é necessário para uma igreja saudável, pois com isso o Evangelho assume nova conta de nós e Jesus Cristo aumenta sua presença e alegria entre nós.

E é uma prioridade para todo cristão. Lucas diz as últimas palavras de Jesus aos discípulos: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas”. [Atos 1:8]

Ele não está descrevendo o que farão – testemunhar não é um verbo, é um pronome. Ele descreve o que eles são. A questão não é se nós queremos ser testemunhas; é se somos testemunhas fiéis. Todos nós somos testemunhas; é apenas se vivemos isto. É um conceito bem forte.

Para uma testemunha, basta dizer o que ela viu e experimentou. Nós dizemos que sabemos. Cada testemunho é único; não há duas testemunhas que podem testemunhar da mesma maneira.

Em 1945, o relatório que William Temple instigou saiu, “Rumo à conversão da Inglaterra”. Nele, foram firmes: não haveria direcionamento significativo a Deus na nação além do testemunho de todo cristão. Em 1985, a Igreja da Inglaterra publicou o relatório “Todos são chamados – Para uma teologia do laicato” (All are called – Towards a theology of the laity). Ele argumenta que pela virtude do batismo, todo cristão é chamado a testemunhar Jesus Cristo.

O homem aclamado como o melhor teólogo na América do Norte, Stanley Hauerwas, vai longe a dizer: “O testemunho define a verdade que a única maneira que podemos conhecer o caráter do mundo, a única maneira de conhecermos a nós mesmos, a única maneira de conhecermos a Deus, é uma pessoa falar a outra”.

Nossas vidas refletem este chamado? Esta é a maior colina para a Igreja subir. Isto que ainda não foi decifrado. Evangelistas profissionais são maravilhosos; agradeço a Deus por eles. Eles são completamente necessários, totalmente essenciais – mas eles não são o suficiente. É preciso todos os cristãos para ser suficiente.

Voltemos a Chrysostom enquanto chegamos ao final:

“Não me diga ‘é impossível para mim influenciar os outros.’ Se você for um cristão, é impossível para você NÃO influenciar os outros! Assim como os elementos que compõe sua natureza humana não contradizem uns aos outros, também neste assunto – pertence à própria natureza de um cristão que ele influencie os outros. Então, não ofenda a Deus. Se você diz ‘o sol não pode brilhar’, você O ofende. Se você diz, ‘Eu, um cristão, não posso estar a serviço dos outros’, você O ofendeu e O chamou de mentiroso. É mais fácil para o sol não brilhar do que para um cristão não fazê-lo. É mais fácil para a própria luz se tornar escuridão do que para um cristão brilhar. Então não me diga que é impossível para você como cristão influenciar os outros, quando o oposto é impossível. Não ofenda a Deus. Se organizamos nossas atividades de maneira ordenada, certamente estas coisas seguirão naturalmente. É impossível para a luz cristã mentir oculta. Tão brilhante é a lâmpada que não pode ser escondida”.

Isto não é fácil ou sem custo para nenhum de nós. Enquanto nos lembramos que a palavra grega para testemunha é mártir, nós, mais e mais, nestes dias, nos confrontamos com o fato de que a palavra passou a ter associações com a morte devido ao preço que as primeiras testemunhas estavam preparadas a pagar por serem fiéis.

Sabemos que algumas semanas atrás 21 cristãos foram assassinados na Líbia. Eu estava falando com o Bispo Angaelos, o Bispo Copta na Inglaterra, que fui visitar para oferecer minhas condolências. Ele me disse que daqueles que escaparam, escutaram que cada um que foi morto, muito brutalmente, gritaram, “Jesus Cristo é o Senhor”. Suas últimas palavras foram um testemunho.

Enquanto termino, vamos retornar à pintura de Caravaggio. Observe, se quiserem, em baixo, na parte inferior da imagem, uma outra mão que espelha a mão vocação de Jesus. É a de Pedro. Você o vê hesitante, não confidente, parecendo olhar para não Mateus, mas para um de seus amigos.

Jesus nos envolve em Seu trabalho de chamar as pessoas para segui-lo. Este é o trabalho da evangelização.

Embora fracamente, embora hesitante, Ele nos chama a estender nossas mãos e corações, para usar nossas palavras e vida, para ecoar Seu chamado a cada pessoa a segui-lo.

Pois a melhor decisão que qualquer um pode tomar é ser um seguidor de Jesus Cristo. Amém.

Fonte: site do Arcebispo de Cantuária, 05 de março de 2015.