Mensagem à Igreja de Cristo e à Sociedade Brasileira

“ A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, pacífica, humilde, compreensiva, cheia de misericórdia e bons frutos, sem discriminações e sem hipocrisia. Na verdade um fruto de justiça é semeado na paz, para aqueles que trabalham pela paz.” (Tiago 3:17-18)

Irmãs e irmãos, cidadãs e cidadãos deste país que também dá nome a nossa Igreja, viemos por meio desta reafirmar aquilo que já manifestamos no documento intitulado “Em defesa da democracia e da justiça social e contra o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff”, publicado em 10 de dezembro de 2015, onde expressamos nosso entendimento que o processo de impeachment é movido por líderes políticos, muitos deles tornados réus em “processos de corrupção (…) e conhecidos defensores de setores empresariais que historicamente têm se beneficiado com o uso do dinheiro público”.

As igrejas históricas, que não tem nenhum envolvimento direto com este ou qualquer outro governo e que não possuem bancadas, têm se manifestado no mesmo sentido. Estas igrejas reafirmam a defesa do devido processo legal e dos procedimentos institucionais da democracia. Não defendem, portanto, um partido ou liderança política em particular, mas conquistas sociais e econômicas que reduziram vergonhosos índices de miséria extrema e possibilitaram acesso à moradia, educação e saúde a milhões de pessoas totalmente excluídas destes direitos inalienáveis da pessoa humana.

O Conselho Nacional de Igreja Cristãs (CONIC) – que inclui as igrejas Católica Apostólica Romana, Confissão Luterana no Brasil, Presbiteriana Unida, Sirian Ortodoxa e a nossa IEAB – divulgou o “Manifesto de Religiosas e Religiosos em defesa da democracia”, endossado por pessoas de diferentes religiões, para além da fé cristã, no qual se afirma que “não concordamos com a judicialização da política, com a partidarização da justiça e com a espetacularização de ações judiciais. Essas são práticas que contribuem para o descrédito das instituições e o acirramento de posições polarizadas, o que leva a população brasileira a desacreditar na justiça. Optamos por manter o respeito a quem pensa diferente. Defendemos o direito ao pluralismo democrático e ao contraditório. Sejamos fiéis ao diálogo sincero, mesmo com quem tem posições políticas contrárias às nossas”.

Nosso Bispo Primaz, Dom Francisco de Assis da Silva, no mesmo contexto, reafirma que

“[…] as investigações de corrupção cometidas por agentes do Estado em todos os poderes em conluio com segmentos empresariais são um atentado contra o povo e devem ser enfrentados com a lei é somente dentro dela. São legítimas somente quando existam provas concretas e quando garantem o direito à ampla defesa. Interesses corporativos de órgãos da grande mídia não podem e não devem ser ideologicamente seletivos e nem condenar a priori ninguém por causa de seu perfil ideológico”.

Além de assumir integralmente as declarações citadas acima, queremos, em atenção a nossa tarefa pastoral e evangélica, não apenas para as pessoas que frequentam nossa igreja, mas para toda a sociedade brasileira, manifestar:

  1. Que a forma com vem sendo conduzido o processo de impeachment mostra claros vícios antidemocráticos, não tipificando crime de responsabilidade conforme a legislação vigente e escondendo a verdadeira intencionalidade de impedir a continuidade e avanços de conquistas sociais que mudaram a vida de milhões de pessoas brasileiras nos últimos anos;
  2. Que, para o bem da sociedade e da cidadania brasileiras, o combate à corrupção em todos os níveis deve continuar, e que, além de fortalecer-se como política de Estado, jamais partidária, defendemos uma ampla reforma do sistema político-eleitoral no Brasil, através de um Plebiscito Constituinte – em conformidade com movimentos e organizações populares – que, entre outras medidas, determine o financiamento público de campanhas, eliminando o abuso e comprometimento de pessoas eleitas com interesses empresariais ou quaisquer outros que não sejam o bem-estar de nosso povo e,
  3. Que, como foi recomendado na nota de nosso Bispo Primaz, naquilo que tivermos diferentes entendimentos políticos, busquemos “que se respeite a livre manifestação do pensamento dentro de padrões que não contemplem o ódio e a violência contra pessoas e grupos”. Pois estas formas de intolerância impossibilitam o convívio democrático que buscamos na construção da paz e da justiça em nosso país.

Entendemos que é nossa tarefa pastoral e profética, levantar a nossa voz, como parte da Igreja de Cristo, em favor da justiça, da verdade e da paz, seguindo o que nos recomenda a Carta de Tiago, “um fruto de justiça é semeado na paz, para aqueles que trabalham pela paz” e fazendo eco ao Salmo 85:10: “a misericórdia e a verdade encontraram-se; a justiça e a paz se beijaram”. Sendo assim, exortamos a todas as pessoas de boa vontade para que trabalhem na preservação dos valores democráticos da sociedade brasileira.

São Paulo, 31 de março de 2016.

Dom Francisco de Assis da Silva, Bispo Primaz e Diocesano da Sul Ocidental

Dom Naudal Gomes, Bispo da Diocese Anglicana de Curitiba

Dom Filadelfo Oliveira, Bispo da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro

Dom Maurício Andrade, Bispo da Diocese Anglicana de Brasília

Dom Saulo Barros, Bispo da Diocese Anglicana da Amazônia

Dom Renato Raatz, Bispo da Diocese Anglicana de Pelotas

Dom Flávio Irala, Bispo da Diocese Anglicana de São Paulo

Dom Humberto Maiztegui, Bispo da Diocese Meridional

Dom João Peixoto, Bispo da Diocese Anglicana do Recife

Publicado em 31/03/2016 pelo Serviço de Notícias da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.