II Carta pastoral dos bispos sobre sexualidade humana

Carta pastoral de dezembro de 2007 dos bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

“Se seus sonhos estiverem nas nuvens, não se preocupe, eles estão nos lugares certos; agora, construa os alicerces”. (Shakespeare)”

A relação sexual não se realiza na sua potencialidade, se não levar em consideração o amor e a justiça em relação à outra pessoa”. (I Carta Pastoral dos Bispos, 1997)

Celebramos os 10 anos da I Carta Pastoral dos Bispos da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil sobre a Sexualidade Humana. O que nela foi dito ainda é atual para a Igreja hoje. No entanto, diante dos acontecimentos posteriores àquela época, que implicaram na deserção de um bispo e de vários clérigos no Nordeste e noutras partes da Comunhão Anglicana no mundo, resolvemos voltar ao assunto, divulgando de novo aquela carta e chamando a atenção para sua leitura e aprofundamento.

Faz parte da tradição em nossa Comunhão o respeito às diferenças de opinião em relação a questões que não são essenciais ao princípio da Revelação divina. Este princípio diz que “Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo.” Tudo que a Bíblia diz que não se refira à essência desta Revelação é secundário, ou seja, faz parte da cultura e dos costumes daqueles que foram instrumentos de Deus para a redação dos textos escriturísticos. Para nós, a Bíblia é a Palavra de Deus no sentido de mensagem de Deus e não ditado de Deus. Por isso, ao longo dos séculos, a Igreja vai discernindo o que é essencial e o que é secundário, o que é revelação divina e o que é mediação humana, sempre ligada a cada época e cultura. Esse discernimento não se faz simplesmente por opiniões de indivíduos ou de grupos. Para isso, todo o povo da Igreja é chamado a colaborar com seu “senso de realidade” e seu “bom senso”, formado pela fé e pela própria experiência de vida. A Tradição é isso, é a Bíblia sendo lida, ao longo dos séculos, na vida do povo de Deus, sob a guia do Espírito Santo. A luz da Razão também nos é de grande auxílio. É necessário examinar as Escrituras com a ajuda da reflexão teológica e das ciências para discernir, em cada tempo, o que Deus nos quer dizer, para que possamos experimentar na vida a obra divina da reconciliação.

Vemos que em nosso seio têm surgido elementos cismáticos e desagregadores que não se conformam com o fato de que há na Comunhão Anglicana correntes que divergem de seu modo de pensar. Percebemos que há quem tenha convicções autênticas; a esses, o nosso respeito, com a afirmação de que são nossos irmãos e irmãs. Há quem se dedique a fomentar a divisão por razões não teológicas, tais como orgulho e anseio pelo poder ou fatores de outra natureza. Ora, isso gera perversas distorções, tanto em relação à natureza da comunhão da Igreja (Eclesiologia), quanto em relação à maneira de interpretar a Bíblia (Hermenêutica). Tanto uns como outros, chamamos ao bom senso e à união. Não é da nossa Tradição a submissão a uma Cúria ou qualquer outro órgão autoritário de doutrina ou prática. Cremos na liberdade de pensamento, pois “a verdade nos libertará”. Cremos na virtude da tolerância, tão característica do Anglicanismo, que é capaz de sustentar a comunhão em redor da mesa do Senhor e o companheirismo na missão de Deus. Isso é um processo que se desenvolve e amadurece lentamente, com diálogo e paciente escuta uns dos outros, e resulta naquilo que a Igreja chama de sensus fidelium, isto é, o sentir comum do povo crente.

Reafirmamos que cremos na inclusão. O estabelecimento de fronteiras ou divisões entre as pessoas, os grupos e os povos é fruto da exclusão que nos cega dentro de nossos limites e do dogmatismo fanático e inibidor da liberdade humana. Sob o amor ilimitado de Deus devemos construir os alicerces para a concretização de nossos sonhos. O Espírito Santo age por meio deles na construção de uma nova humanidade. Esta nova humanidade se realiza na aspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo de que “todos sejam um”.

Nas linhas de nossa I Carta Pastoral foram expressadas as conclusões de nossos I e II Congressos sobre Sexualidade Humana. Reconhecemos que há ainda entre nosso povo muitas dúvidas sobre questões de sexualidade humana. Por isso, recomendamos ao clero que se aprofunde em seu conhecimento sobre o assunto para que tenham instrumentos pastorais adequados no atendimento de suas congregações.

PORTO ALEGRE, dezembro de 2007

Dom Maurício José Araújo de Andrade, Primaz
Dom Edmundo Knox Sherril
Dom Clovis Erly Rodrigues
Dom Luiz Osório Prado
Dom Almir dos Santos
Dom Glauco Soares de Lima
Dom Jubal Pereira Neves
Dom Orlando Santos de Oliveira
Dom Celso Franco de Oliveira
Dom Naudal Alves Gomes
Dom Sebastião Armando Gameleira Soares
Dom Filadelfo Oliveira Neto
Dom Hiroshi Ito
Dom Saulo Maurício de Barros
Dom Renato da Cruz Raatz
Dom Roger Douglas Bird