Mordomia cristã

O que significa?

Entre nós, a palavra Mordomia adquiriu um sentido negativo, principalmente por se associar muito com respeito a alguns de nossos políticos. Mas no sentido original, ela quer dizer justamente o contrário. É a qualidade de vida de quem serve aos outros. Mor significa, em latim, chefe e domo é a casa. De modo geral, o mordomo é a pessoa que administra os assuntos de uma família e as propriedades. No sentido cristão, refere-se basicamente à oportunidade de servirmos a Deus com tudo aquilo que ele nos concede durante nossa vida material.

O que a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil diz a respeito?

Nossos cânones, que são as leis que regem nossa igreja, consideram como dever do ministro instruir as pessoas da paróquia sobre o ministério cristão que inclui: a) a reverência pela Criação e o uso correto das dádivas de Deus, b) a consistente doação de tempo, talentos e recursos financeiros, para a missão da igreja em casa e fora dela, c) a manutenção do padrão bíblico quanto ao dízimo nas contribuições financeiras, d) a proclamação da palavra de Deus de modo que novas pessoas venham a fazer parte da família da igreja.

Por outro lado, os cânones também definem como membros em plena comunhão as pessoas batizadas e confirmadas que frequentemente participam da Santa Eucaristia e contribuem fielmente para manutenção da igreja, sendo que somente tais membros podem votar e ser eleitos para cargos de responsabilidade.

Qual a base histórica e cristã da mordomia?

A comunidade dos cristãos primitivos conhecia a prática da hospitalidade, do Ágape e da Caixa comunitária, que estão entre os elementos da mordomia cristã. Graças à prática da hospitalidade, em meio a terríveis perseguições, o cristianismo pode se expandir. Os Ágapes eram refeições comunitárias com características eucarísticas e nelas todos traziam alimentos para o preparo das refeições em conjunto e outros bens especialmente para suprir pessoas necessitadas da comunidade. Nas reuniões, os cristãos costumavam fazer ofertas, além dos alimentos e de doações aos necessitados, de quantias em dinheiro destinadas ao trabalho ministerial. Tertuliano (155-210 d.C.), um advogado convertido, escreveu testemunhando que a contribuição era espontânea e livre, segundo as possibilidades e a vontade de cada um.

As formas da mordomia cristã

O Cristão deve ter consciência de que a sua vida é a maior mordomia que Deus lhe concede. Nosso tempo nesse mundo é limitado e temos que usá-lo da melhor forma possível. Tudo o que possuímos vem de Deus e continua pertencendo a Ele. Ou seja, somos apenas fiéis depositários das riquezas colocadas à nossa disposição. Deus é o Senhor de tudo e podemos deduzir que somos apenas administradores dos bens terrenos, dos quais teremos de prestar contas algum dia. “Nada trouxemos para o mundo e coisa alguma dele poderemos levar” (1Tm 6:7). O modo de retribuir a Deus por isso é usarmos nossa vida como uma dádiva para os outros, inclusive para nossa igreja, sendo tudo feito com amor em resposta Àquele que nos amou primeiro.

Existem várias maneiras de exercitarmos nossa mordomia cristã, como por exemplo:

a) SERVIR – Os homens, por causa de sua vaidade, estão sempre preocupados em ser importantes entre si. Jesus, porém, mostra qual o único caminho para alcançar a verdadeira grandeza: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja esse o que vos sirva” (Mc 10:43). Há várias áreas da igreja, nas quais cada leigo encontra lugar para servir. Por outro lado, não existe um único membro que deva ser desqualificado para servir. Todos são úteis e necessários. Como diz São Paulo: “Mesmo os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários” (1 Co. 12:22).

b) TESTEMUNHAR – Esta também é uma tarefa da maior importância. Jesus instruiu a seus discípulos, entre os quais nós nos colocamos, que fossem suas testemunhas “até os confins da terra” (At. 1:8). Ser testemunha de Cristo, nos primeiros tempos da igreja cristã, significava realmente para o discípulo viver os ensinamentos do Mestre, mesmo que isso o levasse ao martírio. Ainda hoje, viver os ensinamentos de Cristo pode resultar em sérias dificuldades e problemas. Entretanto, o Cristianismo impressionará muito mais ao mundo se puder ser sentido claramente na vida dos cristãos.

c) EVANGELIZAR – Cristo nos ordenou conforme as palavras de São Marcos 16:15: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” e o livro de Atos inteiro nos mostra quão bem os primeiros cristãos compreenderam essa ordem. Anunciar o Evangelho é missão de cada membro da igreja. A consciência desse dever foi uma das razões do magnífico crescimento da igreja nos tempos dos apóstolos. Se nos inflamarmos com o mesmo entusiasmo da igreja relatada em Atos, iremos presenciar nos dias modernos esse mesmo crescimento. Portanto, só depende de nós.

d) SUSTENTAR – A igreja é uma instituição divina, cuja missão de propagar o Evangelho não pode ser realizada sem recursos materiais. Somos cristãos hoje pela graça de Deus, mas também porque houve, no passado, membros da igreja que cumpriram com alegria seu dever de prover os recursos materiais necessários à expansão do reino de Cristo. Aqui estamos falando da contribuição que se espera de boa vontade de todos os membros da igreja. Essa contribuição continua seguindo os mesmos moldes dos costumes dos primeiros cristãos, lembrando, antes de tudo, que Deus ama a quem dá com alegria (2 Co. 9:7). Segundo as posses de cada um significa que cada um deve saber quais são suas condições. Aquele que tem é convidado a contribuir. O dízimo é bíblico e continua sendo válido no Novo Testamento. A partir do ensinamento bíblico, devemos nos dispor a entregar o dízimo (10% do que recebemos) como uma contribuição mínima e dar ofertas de acordo com o que temos proposto no coração (2Co. 9:7). Ninguém deverá passar necessidade por contribuir. O princípio do “segundo suas posses” visa equilíbrio e não sobrecarga. Se estamos em melhor condição que nossos irmãos e os ajudamos, sua necessidade é suprida e ninguém padece. Nossa contribuição chegará pela rede organizada pela igreja até as pessoas que estão passando dificuldades. O missionário distante de nós está sendo beneficiado. A criança carente está sendo ajudada, e assim por diante. Nossa contribuição é entregue em mãos que vemos e alcança mãos que não vemos.

O uso dos talentos que temos

Mas não é só com dinheiro que podemos participar para a obra da igreja. Somos mordomos de muitos dons que Deus nos concedeu através de nosso corpo e mente. Nossa inteligência, nossa vitalidade e nossas habilidades podem ser colocadas a serviço de Deus. É por isso que, na Santa Comunhão, em retribuição ao sacrifício de Cristo, fazemos a auto-doação de nós mesmos. Se você tem talentos que podem ser úteis a outros, fale com seu Ministro a esse respeito. Facilmente ele poderá enumerar muitas áreas onde você poderá servir à Deus na igreja.

Dízimo é expressão de gratidão a Deus

O apóstolo Paulo (I Ts 5:18) recomenda: “Em tudo daí graças, porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo para convosco.”

Nosso relacionamento para com Deus é o de um filho que, reconhecido, agradece ao Pai tudo o que deve a Ele, em sua vida. Somos convidados a pensar nas bênçãos que recebemos, a cada momento, entre elas, o que a Igreja significa, ou deve significar para nós.

Quando amamos alguém, não relutamos em dar o melhor do que somos e do que temos, como expressão deste amor. Podemos afirmar que o altruísmo e desprendimento são o termômetro que demonstra a intensidade e a sinceridade do que sentimos.

Na Santa Comunhão, declaramos a Deus que lhe “oferecemos nossos corpos e almas em sacrifício vivo e santo” (LOC p. 66). Fazemos isso em reconhecimento ao grande amor demonstrado por Cristo, oferecendo-se na cruz, para o nosso bem.

Oferecer-se a si mesmo é colocar à disposição de Deus os recursos pessoais e materiais de que dispomos. Em se tratando da Igreja, que somos nós mesmos, isso significa “dar a Deus, o que é de Deus”, como disse Jesus, na obra que Ele realiza, por nosso intermédio, no mundo em que vivemos.

Como a igreja aplica o dízimo que é arrecadado mensalmente dos eclesianos?

O dízimo é empregado nas dimensões fundamentais da comunidade: religiosa, missionária – evangelização e social. Ex.:

  • Aquisição de materiais importantes para a catequese e Escola Dominical.
  • Aquisição de materiais para o culto: livros, velas, paramentos, flores, hóstias, folhetos, objetos litúrgicos, impressos.
  • Custear as despesas com funcionários: salários, encargos sociais, estipêndio e previdência do pároco, locomoção.
  • Manutenção e conservação do templo: água, luz, telefone, reformas, material de limpeza, de escritório, sistema de som.
  • Dotar o templo e todas as propriedades da paróquia do que for necessário para o seu regular funcionamento.
  • Formação dos agentes de pastoral e animadores da comunidade: cursos, retiros, encontros, estudos bíblicos.
  • Formação de novas comunidades. Levar a Palavra de Deus a muitos que ainda não a receberam.
  • Participação nas necessidades da Diocese, a paróquia contribui com o dízimo da sua receita à Diocese.
  • Auxílio aos irmãos mais pobres.
  • contribuindo com o tempo, sendo disponível e dando a generosa oferta sendo dizimista, o cristão será verdadeiramente missionário.

Um apelo

Você, irmão nosso, é mordomo dos bens que Deus lhe tem confiado. Ponha seu coração nesta obra, que também é sua. Contribua, honestamente, com o máximo que você puder dar. Contribua conforme os critérios de Deus para o trabalho que todos realizamos em nome de Cristo. Tendo sempre em mente o que o apóstolo Paulo recomenda na carta aos II Cor. 9:6,7:
“Aquele que semeia pouco, também colherá pouco; e aquele que semeia em abundância, também colherá em abundância. Faça cada um conforme resolveu em seu coração, não com tristeza, nem por necessidade; porque Deus ama ao que contribui com alegria.” Que nós, como Igreja, possamos recordar sempre que foi o próprio Jesus que nos assegurou: “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.” Atos 20:30.

Compilado por Norton A. Coll, bacharel em teologia pelo seminário nacional da IEAB; formado em Economia (USP) e Administração (FGV). Pax et Bonum.