Temperamento anglicano

Por Jonh H. Westerhoff

O temperamento se refere aos modos característicos de pensar e de se comportar de uma tradição. O temperamento Anglicano é compreensivo, ambíguo, mente-aberta, intuitivo, estético, moderado, naturalístico, histórico e político.

COMPREENSIVO

Os Anglicanos afirmam o princípio da compreensividade ou de via média (literalmente “nada em excesso” ou “o caminho do meio”), isto é, a convicção de que a verdade é conhecida e guardada quando se mantém a tensão entre declarações opostas no que concerne à verdade. Esse princípio é exemplificado pela convicção de que Jesus era plenamente humano e, ao mesmo tempo, plenamente divino, e pelo compromisso anglicano de ser, simultaneamente, ambos, plenamente Católico e plenamente Protestante, e pela explícita necessidade de se manter a tensão entre liberdade pessoal e responsabilidade comunitária. Conquanto que a aplicação desse princípio de compreensividade seja extremamente difícil de se praticar, a luta para implementá-lo é um aspecto importante da nossa tradição. Os Anglicanos, por conseguinte, afirmam ambos o sagrado e o secular; a realidade material e a realidade imaterial, a iluminação especulativa da mente e a iluminação afetiva do coração; a possibilidade de uma experiência direta e sem mediações com Deus e a experiência indireta e mediada com Deus; o ministério transcendente de Deus e a imanente experiência de Deus; e as convicções contraditórias de que a fé é uma dádiva que resulta da participação nos sacramentos e de que a fé é uma precondição necessária para a participação nos sacramentos. Mais ainda, esse princípio provê os meios para se resolver o que parece ser discordâncias severas. Por exemplo, os anglicanos divergem sobre a afirmação de que nós vivemos no batismo pelo processo de nos tornarmos o que já somos. Essa convicção torna possível a afirmação de que as duas convicções conflitantes, a saber, que todos os benefícios de transformação nos são dados plenamente no batismo e de que devemos nos engajar por toda a nossa vida no esforço para alcançar os benefícios do batismo.

AMBÍGUO

A categoria da ambiguidade (O conceito mais apropriado, na língua portuguesa, seria o de ambivalência – NT) tem sido com frequência mal entendida. Ela não é uma categoria política que possa ser usada para justificar incompetência ou desonestidade. Ela é antes uma categoria teológica que torna possível se viver com o que parece ser diferenças irreconciliáveis. Afirmar o ambíguo implica que quando nos deparamos com novas experiências ou assuntos complexos permanecemos abertos às várias interpretações e demonstramos o desejo de viver com a incerteza do significado até que uma resolução possa ser encontrada. De fato, os anglicanos afirmam uma abertura para todas as experiências no desenvolvimento da capacidade de ser sensível e aceitar o que o sentido nos diz, mesmo quando eles não se encaixam nos esquemas de nossas categorias estabelecidas, isto é, eles são ambíguos, incompreensíveis, obscuros ou estranhos. Os anglicanos são capazes de tolerar o ainda confuso no campo teológico ou ético, nós não necessitamos ter todas as coisas resolvidas e imediatamente solucionadas. Desenvolvemos uma sensibilidade que tende a ser mais indutiva e pragmática do que dedutiva e sistemática. Estamos preparados para vivermos com o conflito e o erro com meios de chegarmos ao estabelecimento da verdade. Os anglicanos acreditam que o conflito quando tratado com meios reconciliatórios é saudável e não deve ser evitado. Sem dúvida, o conflito é um aspecto necessário da nossa tarefa teológica. Essa habilidade de conviver com a ambiguidade nos ajuda a enfrentarmos situações nas quais dois ou mais textos bíblicos, princípios teológicos ou normas éticas pareçam logicamente incompatíveis. Quando isso ocorre, nos estamos preparados para esperar pacientemente (nem fugindo da situação nem a confrontando), para orar com um coração que discerne, e para escutar com uma mente aberta até que o conflito possa ser reconciliado por meio da ajuda do Espírito Santo.

MENTE ABERTA

Os Anglicanos encorajam a busca, o questionamento, a mente razoável que está sempre aberta a novas descobertas e a mudança. Ouvimos cuidadosamente a todos, buscamos a sabedoria em todos os lugares, tomamos seriamente o mundo secular e sua obra, e reconhecemos que o conhecimento contemporâneo não está necessariamente em conflito com a fé e, ainda mais, pode nos oferecer sabedoria. De certo, é necessário notar que cada uma dessas características anglicanas tem o seu lado negativo e pode se manifestar em sérias distorções. Por exemplo, se ser de mente aberta pode resultar na aceitação acrítica de todas as pretensas verdades e no abençoar o mundo secular, suas compreensões e maneiras. De modo semelhante a categoria ética-teológica da ambiguidade por ser usada para se evitar tomar todas decisões sobre o que seja bom ou verdadeiro. Por conseguinte, necessitamos ser cuidadosos em incluir todas estas características e não sermos seletivos.

INTUITIVO

Embora nunca sendo anti-intelectual os anglicanos se sentem mais em casa com o modo intuitivo de pensar e conhecer do que no que seja intelectual. Preferimos a arte à filosofia e estamos mais em casa no mundo dos símbolos, dos mitos e dos rituais do que a teologia sistemática; mais em casa com a liturgia que faz uso das artes (drama, dança, música, poesia e artes visuais) do que com a prova discursiva; e mais em casa com o feminino do que com as dimensões masculinas da vida. Os Anglicanos afirmam o anagógico, o metafórico, o paradoxal, o simbólico, o pré racional no tocante a experiência humana. Reconhecendo que a natureza humana e a sociedade são mais profundamente motivadas pelas imagens e tabulações do que por ideias e conceitos, estamos aptos a enfatizar a imaginação enquanto mantemos em tensão a consciência objetiva e as ideias racionais com a consciência subjetiva e as impressões não racionais.

ESTÉTICO

Verdade, bondade, e beleza são relacionadas umas com as outras, em que a presença de uma é julgada pela presença das outras duas. Por exemplo, a beleza pode ser definida como uma revelação da presença (sacerdotal) ou a ausência (profética) da bondade e da verdade. Enquanto algumas tradições enfatizam a verdade e a bondade, os anglicanos têm feito da beleza a porta de acesso à verdade e à bondade. Temos um forte respeito e cremos na beleza e santidade e retidão. Dinheiro gasto em beleza sacerdotal e profética, é justificado desde quando seja um canal para revelar e advogar a verdade e a bondade. Nossas igrejas pretendem ser obras de arte, e fazemos todo esforço para assegurar que as artes sejam usadas nas igrejas da melhor qualidade. Artistas sempre se sentiram em casa em nossas congregações e desempenharam papel significativo em nossa adoração e vida comunitária.

MODERADO

Os anglicanos creem que são chamados a viver uma vida divina (manifestar a imagem divina em nós), reta (viver uma relação correta com Deus e com o próximo) e sóbria. Isso significa que os anglicanos tipicamente evitam extravagâncias, extremos e excessos em todos os aspectos da vida pessoal e comunitária, pensamentos ou emoções. Somos um povo da moderação e contenção, que modelam uma abordagem à vida de modo temperado, balanceado e razoável. Isso é uma vida na qual a oração, o trabalho, o estudo e a diversão tem o seu lugar.

NATURALÍSTICO

Os anglicanos tem uma reverência e se deleitam nos ritmos da vida terrena suas estações e suas mudanças, o mundo natural e toda criação. Não somente temos historicamente afirmado a teologia natural e a lei natural, meios pelos quais Deus tem feito algo do conhecimento da Sua vontade e tornado Seus caminhos possíveis para todos os seres humanos razoáveis, mas temos sempre levado a sério as contribuições das ciências naturais para a vida humana. Através dos anos nossos poetas tem nos alimentado com uma consciência da natureza e da ecologia. Temos sempre sentido orgulho do uso vivo das flores, de candelabros e nos rodeamos das coisas naturais na Igreja. Temos dado o melhor do nosso compromisso com o movimento ecológico.

HISTÓRICO

Os anglicanos tem um grande senso de histórico e desejam honrar tradições. Algumas vezes podemos ser tentados em transformar as nossas igrejas em museus e nos recusado a remodela-las para formas mais contemporâneas de adoração, mas, no geral, isso tem nos encorajado a levar o passado a sério e a respeitar o que podemos aprender de uma reflexão cuidadosa sobre o passado, bem como o esforço para manter nossas raízes na história e cultura anglicana. Essa consciência histórica é manifestada em nossa preocupação com a sucessão apostólica como um meio de ligarmos a igreja com o seu passado.

POLÍTICO

O temperamento se refere aos modos característicos de pensar e de se comportar de uma tradição. O temperamento Anglicano é compreensivo, ambíguo, mente-aberta, intuitivo, estético, moderado, naturalístico, histórico e político.