Confirmação II

Por +Sumio Takatsu

Pela Confirmação assumimos o nosso lugar, na Igreja, que nos foi dado pelo Batismo, renovando os votos batismais, que os nossos fiadores fizeram por nós quando éramos crianças.

Então, a Confirmação é um ato pelo qual, assumimos, pessoalmente, a responsabilidade que nos cabe na Igreja como seus membros. Se for assim, devemos conhecer (1) o que a Igreja é, (2) o ensino, a memória e esperança da Igreja, (3) e a Missão da Igreja.

Igreja

A Igreja é Santa.

A Igreja é uma comunidade. Os membros de uma comunidade compartilham alguma coisa em comum.

A paróquia em qualquer lugar é uma comunidade. O termo comunidade significa a qualidade ou estado do que é comum. Então, que é que nós temos em comum? Os membros da paróquia têm em comum Jesus Cristo, sua Vida e Missão. E os têm porque compartilham o Espírito Santo, que anima a vida de todos nós e reaviva a memória e esperança, que esta comunidade compartilha com as demais comunidades pelo mundo afora, hoje e no passado. O Espírito Santo torna possível a presença de Jesus Cristo na Igreja e nos seus membros.

Ninguém chegou a ter, em comum, Jesus Cristo e o Espírito Santo por si mesmo. A Bíblia nos ensina que tudo começou com a iniciativa de Deus. Deus nos chamou para pertencermos a Ele. E Deus nos chamou por meio de outros. Cada um de nós pode contar a sua estória de como está na Igreja. Pois quem chegou a conhecer Jesus Cristo e pertencer à Igreja teve a mediação de outros. Em poucas palavras, fomos chamados pelos outros, para chamar também os outros para Jesus Cristo. Por exemplo, nascemos numa família cristã, ou conhecemos pessoas que conheceram a Jesus Cristo, por isso, estamos aqui.

Para sinalizar a iniciativa de Deus pela nossa chamada, e para reconhecer que o fato de pertencermos a Jesus cristo é um dom de Deus e não a nossa conquista, batizamos as crianças, que não podem por si mesmas tomar decisão. O batismo infantil ressalta a iniciativa e a anterioridade da graça de Deus para a nossa salvação.

De fato, toda comunidade tem atos simbólicos (rituais) pelos qual seus membros sinalizam a coisa comum e a pertença mútua dos membros. Por exemplo, o casal para sinalizar o compromisso faz troca de palavras de compromisso com aperto de mãos, e de aliança, anéis que simbolizam a aliança entre o marido e a mulher. A aliança ou pacto surgiu nos tempos imemoriais. O povo bíblico conheceu essa prática no seu meio ambiente. Por isso, o Antigo Testamento fala muito na aliança ou pacto que Deus deu ao seu povo. O Pacto do Sinai, por exemplo, eu serei o Deus de vocês e vocês serão o meu povo. (Ex 19.5-6) O Batismo é a aliança com Deus.

Pelo Batismo, fomos feitos membros do Corpo de Cristo.(Gl 3.27-29; Ro 6.3ss.) E recebemos o Espírito Santo. (1Co 12.13; Gl 4.6) E, na Confirmação, assumimos, por nós mesmos, o compromisso da Aliança ou do Pacto. Reconhecemos que somos o povo, pertence a Deus. É isso que quer dizer o povo de Deus. (Ler 1Pe 2.9).

Esse povo adquirido por Deus, que somos, é nação santa, isto é, gente ou povo santo. Santo quer dizer separado para o trabalho de Deus. Todas essas palavras e figuras têm suas raízes no Antigo Testamento.

Nação quer dizer povo. Raça eleita quer também dizer gente, povo. Eleito quer dizer chamado. Não se trata de privilégio, mas de responsabilidade. E a responsabilidade consiste em ser o povo sacerdotal, que proclama as maravilhas de Deus. Povo sacerdotal significa o povo que oferece os louvores a Deus e se faz lugar de encontro entre Deus e as pessoas. (Ver 1Pe 2.4). Vejam a imagem da Igreja como o templo de Deus, sendo cada um de nós uma pedra. Essas pedras são sustentadas, ligadas umas as outras pela pedra angular, que é Cristo. A pedra angular é a pedra fundamental que faz essa ligação na construção.

Essa pedra angular é Jesus Cristo. Também Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote. Isso aponta para o seguinte. Jesus Cristo une as pessoas para uma Missão. Aqui a Missão é clara: ser o lugar do encontro entre Deus e as pessoas e oferecer os louvores a Deus. A pergunta que surge é: que é que une as pessoas (pedras) num templo habitado pelo Espírito Santo.

A figura do sacerdócio sugere doação. Essa doação parte do amor. Essa doação cura as feridas e possibilita que as pessoas aceitem umas as outras. É isso que se chama de perdão, de libertação do aprisionamento das pessoas por coisas que não permitem aceitar umas as outras. Esse amor vem da própria vida de Deus, assumiu a carne em Jesus Cristo, manifestou-se em vária atividade de Jesus, principalmente, em favor dos que sofrem, e dos que estão longe de Deus. Em outras palavras, Deus, em Cristo, removeu as barreiras e fez com que nascesse uma verdadeira comunidade entre as pessoas. Esse trabalho de Deus em Cristo é denominado de expiação ou reconciliação. Essa reconciliação foi vivida por Cristo de modo especial. Aos olhos da fé, esse amor reconciliador pode atuar na vida de cada um de nós pela presença e atividade do Espírito Santo. Para tanto é preciso que as nossas vidas estejam abertas para Deus.

A Igreja é esse povo sacerdotal, porque participa da vida e da missão de Cristo. Como esse povo ela tem a missão de anunciar as Boas Novas da Reconciliação, e de louvar a Deus pelos seus feitos.

Se a Igreja é um povo sacerdotal, ela é também povo profético. Havia, no Antigo Testamento, pessoas chamadas por Deus para anunciarem a Palavra de Deus diante dos problemas específicos, principalmente, no que se refere à vontade de Deus nas questões públicas. A mensagem consistia ora de aviso, ora de esperança. Jesus Cristo como a Palavra de Deus feita carne é o Profeta. O Novo Testamento afirma que Jesus Cristo recapitulou a missão dos profetas que Deus havia enviado. Feito carne, a Palavra se fez ouvir, reunindo aqueles que respondem à fala de Deus e anunciam a sua mensagem. Nesta sentido, a Igreja é chamada e separada (santa) para essa tarefa como o Corpo de Cristo, o Profeta.

Se a Igreja é sacerdotal e profética ela é também pastoral. No Antigo Testamento, os pastores eram reis. Tinham a função de cuidar que a vontade de Deus fosse vivida pelo povo. Assim, ele cuidava que os fracos não fossem esmagados pelos fortes. Pois o povo tinha de se lembrar de que eles eram fracos como escravos e foram libertados por Deus, por isso, tinham de ser misericordiosos aos sofredores.Com a dispersão do povo (rebanho), houve a promessa por parte de Deus de que um pastor rei fosse enviado para reunir de todos os cantos da terra o seu povo disperso. A Igreja do Novo Testamento entendeu que esse pastor rei é Jesus Cristo. Outra vez, Ele reuniu com seu sangue, isto é, com o amor doador. Sendo Jesus Cristo, o Sumo Pastor, a igreja, o seu Corpo é uma comunidade pastoral. Todos nós temos parte no cuidado uns pelos outros e no trabalho de reunir o povo disperso. Nisto também a Igreja é chamada e separada.

A Igreja é descrita na Bíblia de muitas maneiras. Mas os Credos da Igreja resumiram tudo em algumas palavras: Igreja Santa Católica e Apostólica.

É Santa, porque é chamada e separada para o trabalho de Deus.

A Igreja é Católica

Temos uma outra palavra católica. Ela quer dizer o todo, universal, em contraste com um grupo, ou segmento que se separam baseados em opiniões personalistas. O fato de que Jesus Cristo é a Palavra feita carne, a Palavra pela qual Deus criou todas as coisas e, pela doação de si mesmo em amor, quebrou os fundamentos de todas as barreiras entre Deus e as pessoas e entre as pessoa, a Igreja que é seu Corpo, é para todos. Sua mensagem não pode ser apenas para um segmento da humanidade e da sociedade e não se dirige apenas a um setor da vida que se pode denominar de espiritual. O Evangelho é para todos e para o todo do homem.

Por ser católica a Igreja não pode ficar isolada. Para nós a unidade básica da Igreja como uma organização é um povo em determinado local com seu bispo e clero. É isso que chamamos de diocese. Acreditamos que esse era o padrão mais antigo da Igreja. E a diocese não pode viver isolada, vivemos em agrupamento de dioceses em determinada localidade como é o caso da Igreja Episcopal do Brasil, a Igreja Episcopal nos Estados Unidos, a Igreja Anglicana do Canadá, a Igreja da Inglaterra, a Igreja Episcopal Escocesa, por exemplo. Esse agrupamento (essas Igrejas) também não pode ficar isolado umas das outras. Pois é natureza da Igreja viver a comunhão. Pois o Evangelho cria a comunhão. Ser o Corpo de Cristo é viver a comunhão. Por isso, as trinta e oito Igrejas nacionais ou regionais pertencem ao que denominamos de Comunhão Anglicana. Ela está em diálogo com a Igreja Católica Romana, Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana, Igrejas Ortodoxas, e está para começar o diálogo com a Igreja Metodista. E as Igrejas da Comunhão Anglicana fazem parte do Conselho Mundial de Igrejas.

As Igrejas da Comunhão Anglicana têm no Arcebispo de Cantuária símbolo afetivo de unidade. Ele não tem o governo das Igrejas fora da Inglaterra. Sua opinião é acatada quando se percebe nela uma autoridade persuasiva e não impositiva. Há a Conferência dos Bispos que se reúnem a cada dez anos para a consulta mútua. Há também Encontros dos Primazes, isto é, o Encontro dos bispos que presidem a Câmara dos Bispos de cada uma de nossas Igrejas. Existe também o Conselho dos representantes das Igrejas de nossa Comunhão. Esse Conselho se reúne para a consulta. Do Brasil o Bispo S.Takatsu é representante até o fim da reunião do Conselho em 1997, no Panamá. Esses organismos são consultivos e não legislativos. Além disso, o padrão do Livro de Oração Comum é um outro elo de unidade. Os Livros podem variar de uma Igreja para a outra. (Aqui, a Igreja é empregada não no sentido de paróquia, nem de Igreja Católica Romana ou da Igreja Luterana, mas, no sentido da Igreja Episcopal do Brasil, por exemplo).

Ainda um outro elemento funciona como elo é o Ciclo de Orações. Em todos os domingos incluímos em nossas Intercessões os bispos, clérigos e povo das dioceses de nossa Comunhão pelo mundo. Cada dia uma diocese é lembrada por todas.

É por esse meio que a nossa Igreja quer expressar a sua catolicidade. Para ser a Igreja Santa Católica em cada localidade é preciso ter no centro de sua vida Jesus Cristo no poder do Espírito Santo e levar em consideração todos esses fatores mencionados acima.

A Igreja é Apostólica

Também a Igreja é Apostólica. A Carta aos Efésios diz: vocês todos pertencem ao edifício que tem como alicerces os apóstolos e os profetas; e o próprio Jesus Cristo é a pedra angular.(2.20).

Que é que o apóstolo contribuiu de especial para a Igreja? A contribuição fundamental deles é o testemunho da ressurreição de Cristo. Sem esse testemunho, não existe a Igreja. Se a Igreja a perder ela deixará de ser a Igreja de Cristo, mas um grupo humano qualquer. Tanto assim que, quando alguns da Igreja de Corinto negaram a ressurreição de Cristo, o apóstolo S.Paulo disse: se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória e vocês ainda estão no pecado. (1Co 15.17). E a ressurreição é fundamental na Tradição, isto é, o Evangelho que o apóstolo comunicou aos coríntios. (1Co 15.1-7) Ele, Paulo, é apóstolo, porque, a despeito de ter perseguido a Cristo e a Igreja, o Cristo ressuscitado se revelou de modo especial. (ver os vs.8ss.). Também, na substituição de Judas Iscariotes, Matias foi eleito, porque ele era um dos testemunhos da ressurreição de Cristo.

A apostolicidade quer dizer também o envio. A Igreja foi enviada por Cristo no Espírito Santo para a missão. O Cristo ressuscitado soprou sobre a Igreja o Espírito Santo e a enviou ao mundo. (Jo 20.19ss.) O Livro dos Atos dos Apóstolos no cap.2.42 resume a apostolicidade da Igreja. (Ler o texto).

A Igreja como um todo é apostólico, porque está construída sobre o testemunho, ensino e missão dos apóstolos.

Então, a Igreja é e deve ser apostólica quando proclama o Evangelho, celebra a Eucaristia, ministra o Batismo, ora em favor deste mundo, trabalha para a cura das pessoas e da sociedade.

Toda a Igreja deve ser apostólica. Junto com o ensino e missão e serviço há ministério que represente os apóstolos e lembre a Igreja de sua apostolicidade. Esse ministério é o ministério dos bispos.

O que falamos sobre a Igreja está no ensino da Igreja e esse ensino está na sua memória e esperança. Essa memória e esperança estão entesouradas nas Escrituras e na tradição. O resumo da tradição está, em nossa perspectiva anglicana, no LOC.